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10 de setembro de 2013

RPG - Background de um personagem para um mundo Medieval Fantástico

Sâmyla, a flor do deserto

Sou Sâmyla, nome um tanto conhecido por todos os povos que dependem de água no deserto. Sim, minha mãe deu-me o nome de uma suculenta e rósea flor de cacto que desabrocha no auge do verão. Não sei que significado esse nome possuía para ela, se é que possuía algum, por isso posso apenas imaginar possíveis justificativas para isso. Mas certamente sei o significado deste nome para mim. Minha mãe me chamava a maior parte do tempo de Sam, ou Samy. Tenho saudades da minha mãe, e nem tantas memórias dela. Fico imaginando como ela era antes de eu nascer, qual era sua história mais antiga, fico curiosa à respeito dos mistérios que ela guardava consigo.

Nunca cheguei a conhecer a grande cidade de Daerur, embora seja de lá que eu venha. Minha mãe, fugindo por minha causa, escondeu-se comigo ainda na barriga numa caravana de comerciantes conhecidos dela, apenas para me parir a algumas horas da cidade, num casebre de um fazendeiro que aceitou abrigá-la por aquela noite à pedido dos tais comerciantes, para que ninguém soubesse de meu nascimento prematuro. Me contavam que eu tinha nascido pequenina como um filhotinho de vira-lata, todos achavam que eu não fosse aguentar. Hoje em dia ninguém mais me conhece ou reconhece para ficar me lembrando destas coisas. Embora não seja necessário, tenho as lembranças destas pessoas muito claras na minha mente.

Foi nesta caravana que vivemos, minha mãe e eu, por um bom tempo. Viajávamos com frequência, indo de uma cidade para outra, conhecíamos gente nova e encontrávamos conhecidos nossos, vivandeiros, andarilhos, caçadores, trovadores, latoeiros, ciganos... uma infinidade de figuras errantes como nós. Minha mãe ganhava dinheiro lendo mãos e adivinhando o futuro das pessoas, ajudando os comerciantes nas vendas deles, comercializando ela mesma algumas coisas que fazia: perfumes, por exemplo, poções do amor, remédios... ela costurava, cantava, dançava...

Eu levava jeito para isso também.

Quando fiquei mais velha eu deixei de ficar sentada na carroça olhando tudo e todos enquanto brincava com bonecas que minha mãe costurava para mim e passei a costurá-las eu mesma. Comecei a ajudar na confecção dos panos, das rendas, dos perfumes. Comprava os frascos, entregava pedidos, corria para lá e para cá sujando meu vestido de poeira e ajudando a minha mãe a ganhar nosso sustento. Ela estava pensando em voltar para Daerur e por isso estávamos juntando algum dinheiro para podermos viajar até lá novamente e comprarmos alguns animais e terras. Talvez ainda tivéssemos que nos submeter a algum homem mais rico, ideia que minha mãe relutava em considerar.

Eu não conheci muito do passado dela, porém ela me falava muito do meu futuro, dizia que eu seria uma menina linda e talentosa, que eu poderia ser o que eu quisesse, que eu deveria aprender agora pois quando ela morresse eu deveria ser capaz de me virar sem ela. Ela dizia que eu era a flor mais bonita de todo o deserto e de todos os jardins, e que eu devia aprender com as flores a importância das fragrâncias e como usá-las... E todas as demais coisas que uma mãe diz para a filha com a certeza de que nada é eterno, enquanto a filha tem absoluta certeza de que a alegria é inexorável e nada nunca poderia dar errado. Mas a vida insiste em nos fazer crescer, e sem perguntar nossa opinião nos força a dar um gigantesco passo à frente pondo à prova nossas emoções quando menos esperamos. Pode parecer clichê, mas é verdade.

À caminho de Daerur, atravessávamos o deserto que muitos chamam de Deserto da Morte, afinal não é nada mais do que uma planície árida e quente, onde toda a vida que há rasteja ou sob, ou sobre a areia. O ar tremula ao seu redor como que algo vivo e constantemente em movimento, deslocando para lá e para cá toda a existência, a todo momento. Frequentemente o deserto lhe prega peças, e faz com que acredite que há água onde não há vida, e que haverá vida onde tudo jaz inerte e estéril. Contudo minha caravana e eu já sabíamos, a esta altura, como atravessar o deserto de um canto a outro. Cobertos por tecidos leves, nos protegíamos da poeira, montados em Cumohs evitávamos a fadiga, e viajando no auge do verão colhíamos todas as Sâmylas do deserto, mantendo-nos hidratados.

Foi durante esta viagem que minha vida mudou. Numa noite fria e escura acampávamos ao redor de grandes fogueiras, onde tínhamos assado algumas carnes que tinham conseguido caçar naquela tarde, e, enquanto dormíamos, caíram sobre nós diversos assaltantes. Eles se moviam rápida e furtivamente pelo acampamento chutando as barracas e matando os homens que nos acompanhavam e protegiam. Eu acordei com o barulho e estava sozinha numa barraca ouvindo a confusão do lado de fora. Minha mãe, como de costume, devia estar realizando alguma outra tarefa, mas ao por minha cabeça para fora das abas grossas da barraca vi logo seu corpo estendido no chão e corri em direção a ela, com as lágrimas correndo pela minha face, tal qual escorrem do orifício que abrimos para tirar a água da Sâmyla.

O sangue empapava suas roupas e a areia ao redor, uma faca jazia próxima de sua mão, e eu deitei sobre seu peito, gritando de pavor e saudade, uma saudade louca que você apenas sente quando sabe que perdeu alguém para sempre, um sentimento ácido, explosivo e incontrolável. Os atacantes ao meu redor prosseguiam cortando, matando e pilhando nossa caravana. Poucos tiveram tempo para resistir, e os que fizeram logo pereceram. Alguns se renderam e foram presos e amarrados aos Cumohs que os forasteiros montavam. Estes pilhavam e saqueavam as barracas, arrancavam jóias dos dedos, pescoços e braços dos mortos...

- Sam... - Eu olhei de súbito para minha mãe ao ouvir meu nome sussurrado. - Seja forte. - Ela disse. - Eu te amo. - Ela tentou sorrir. E morreu.

Foi então que veio a dor de verdade. Havia sentido a morte dela, restituído a esperança e perdido tudo de uma vez, num retumbar surdo de seu coração que bateu junto com o meu numa nota lúgubre de seu derradeiro fim. Não pude reprimir o grito agudo e sonoro que escapou dolorosamente dos meus lábios, e todos os que me circundavam que pareciam me ignorar olharam simultaneamente para mim, olhos arregalados e corações saltados. Os animais de montaria se assustaram e os que não estavam presos correram, e logo também o fez o restante dos homens. Deixando-me sozinha por um instante com a minha mãe e a minha dor. O vento uivou comigo e levantou uma nuvem densa de areia que apagou as fogueiras, cobriu as barracas caídas e os corpos mortos.

Cobriu a mim e à minha alegria, alegria de menina, alegria ingênua de criança lavada pelo sangue materno, pelo sangue terno. Pelo vento gelado e pelo cheiro de morte.

Eu tinha apenas oito anos.

Sentindo a minha boca seca eu acordei com um som e um cheiro que não eram comuns. Tentei abrir os olhos e o sol os queimou. Tentando levantar, meus braços fraquejaram. A areia queimava e minha pele ardia... Vislumbrei um movimento, e ouvi vozes, mas pensei que fossem as peças do deserto tentando me enganar. Mas não eram. Quando tentei falar senti meus lábios se descolarem dolorosamente rasgando a pele que os mantivera unidos num silêncio sorumbático. O gosto de sangue inundou meu paladar imediatamente e eu choraminguei. Lembro de ter choramingado.

Vi por detrás das pálpebras uma sombra se avolumando sobre mim e o cheiro ficando mais forte. Abri os olhos e vi um garoto moreno, um pouco mais velho que eu.

- Você está viva? - Perguntou ele com a voz por mudar, por detrás dos panos que cobriam seu rosto deixando apenas os vívidos olhos azuis à mostra.

- Sim - murmurei, receosa.

- MESTRE!!  - Ele gritou em alguma direção - Acho que encontramos ela!

Ele abaixou-se para me ajudar a levantar-me e perguntou-me meu nome, quando eu disse ele deve ter pensado que eu estava com sede, e estava mesmo, por que tirou de uma das bolsinhas que levava consigo uma Sâmyla, furou a casca com um dedo e verteu o líquido quase sem gosto nos meus lábios. Seu toque era calmo, ponderado e suave, não era o toque de um garoto de doze anos, como era.

Logo, um homem mais velho e de barba cumprida e branca curvou-se sobre mim apoiando-se num cajado. Examinou-me com os olhos profundos e sérios, de um marrom cor de lama que oculta segredos perigosos. Ele me assustou. E com medo eu me afastei dos dois, me dando conta de que estava deixando dois estranhos no meio do deserto tocarem em mim e me alimentarem... O menino tentou me segurar, mas o velho segurou o menino, e eu escorreguei em algo úmido e pegajoso que era o corpo da minha mãe, logo atrás de mim. Apavorada eu comecei a me levantar para correr, chorando, mas o garoto me segurou e me abraçou.

Eu estava pronta para me defender, mas o cheiro dele, o abraço dele me acalmou. E eu deixei-me cair novamente, de joelhos, chorando como uma criança, que eu era. Eles vinham montados em Cumohs esguios, cada um com um barril pendurado no pescoço. E eles me encaravam como que indagando por que eu chorava. O velho e o garoto me levaram dali. Sem trocar palavra decidiram o caminho, e, montada no mesmo animal que o menino, viajei abraçada nele durante dois dias. Eles me alimentaram, me deixaram pensar. E quando eu comecei a fazer as perguntas o menino pareceu aliviado, por que começou a perguntar um monte de coisas também, algumas das quais eu não fazia idéia do significado.

Paramos em uma caverna e descansamos lá por um tempo. O velho, cujo nome eu já sabia ser Qirin, saiu deixando eu e o garoto à sós, mas não antes de ter trocado algumas palavras sussurradas com ele. Ele tirou a máscara que o protegia do sol revelando seus bravios cabelos negros, moldura de um rosto alongado e forte, coberto por manchinhas claras por cima do nariz e bochechas.

- Meu nome é Varyon! - Declarou altivo de cima de seus cento e cinquenta centímetros. - Filho do sol e do mar... e a senhora...? - Perguntou, sentando-se, sem deixar de me encarar radiante com seus olhos que não denotavam nada além de uma alegria contida.

- Senhora? - Repeti, reconhecendo meu baixo nascimento. - Sou Sâmyla.

- Ah, como a flor! - Eu apenas assenti.

Conversamos sobre coisas, ele me contou que era um andarilho, como seu mestre, mas não pôde me dizer quem o mestre era, ou o que os dois faziam, ou o que aprendia, ou qualquer coisa diferente do que eu já soubesse. Mas não posso mentir, seu mistério me encantou, suas histórias me entretiveram, e não sei se ele estava usando magia naquele momento e adiante, mas foi à partir deste dia que comecei a tentar esquecer da minha falecida mãezinha.

Após o retorno do velho Qirin dormimos e partimos na manhã seguinte. O velho me fez algumas perguntas, e, como Varyon já tinha me convencido de que seu mestre era um bom homem e que as pessoas se acostumavam com seu olhar assustador com o tempo, eu as respondia. Ao longo da viagem eles me perguntaram se eu gostaria de ficar com eles, eu não via qualquer outro lugar para ir, contei-lhes minha história e então comecei a ajudá-los no que podia. Costura, principalmente, mas também cantava para alegrá-los, eles me contavam histórias e lendas, algumas que eu já conhecia dos bardos que tive o prazer de encontrar ao longo da vida, mas algumas que, sem que eu soubesse faziam referência a mim. E Varyon sempre tentava falar algo além do que devia e Qirin o cortava. Passei a gostar daqueles dois, e nossa história deve ser só nossa. 

Qirin ensinava-nos a ler, treinava-nos na caça, nos instruía a respeito das plantas, as comestíveis e as venenosas, dos astros celestes dos animais do deserto, nos disciplinava e contava diversas histórias, explicava-nos coisas como por que uma pedra cai após ser lançada para o alto, nos fazia refletir sobre números e nos fazia contar diversas vezes quantidades exorbitantes. Por isso Varyon o chamava de mestre. Ao menos era nisso que eu acreditava.

Ao longo de quatro anos e mais um pouco vivi com eles. Parece que o destino já estava traçado nas nossas mãos. Por mais que eu não fosse tão hábil em lê-las como minha mãe era, eu sabia que uma nova mudança estava prestes a ocorrer. E havia outras, agendadas nas confusas linhas das minhas mãos. Muitas outras. Varyon e Qirin nunca deixaram-me tentar ler as suas, diziam que era perigoso saber o futuro, e que não estavam interessados em saber os deles. Eu tentava ver os meus nas estrelas do céu do deserto, à noite, na minha mão, no vento, nas plantas, nas nuvens... queria compreender melhor o que o futuro reservava para mim.

E foi num dia de estranha palidez celeste que, enquanto atravessávamos o Vale do Caos sob uma chuva torrencial e repentina, um novo evento alterou minha vida drasticamente. Um ser negro e espectral barrou nosso caminho falando coisas numa língua áspera e aterradora. Sua voz era rascante, e, junto das pesadas gotas de chuva fizeram enregelar meu sangue. O Mestre nos parou com seu cajado, e, abraçados sob a mesma capa, senti Varyon se retesar. Vi seus olhos alertas e prontos para um confronto vindouro, como acontecia quando caçávamos. Mas agora nós éramos a presa, e estávamos em seu território.

No que pareceu um comando, o espectro, que discutia com meu mestre naquela língua que eu desconhecia, fez cair um raio sobre nós. Foi quando tudo fez mais sentido. Da explosão causada pela descarga elétrica numa barreira mágica que Qirin criou sobre nós surgiram outras criaturas como a primeira, que rodopiavam sem tocar o chão ao redor de nós, quase que num cântico funerário. Já tínhamos lidado com homens lagarto, bandidos, comerciantes, magos acreditando que poderiam ganhar algo de nós, mas nunca com os mortos furiosos.

Qirin irradiava uma tênue luz esbranquiçada, algo que eu nunca havia visto antes, apenas em suas histórias. E por causa delas, de repente, me dei conta do que ocorria. Era ele o mago branco das lendas que contava. E logo descobri que era Varyon, de fato, o herdeiro do sol e do mar. O, a essa altura, jovem rapaz retirou a capa, e numa elegante e imponente postura de combate desarmado protegeu-me das criaturas que avançaram contra nós, enquanto controlava a água que despencava do céu como se fizesse parte dela.

Eu assisti a tudo, impotente e deslumbrada, e muito assustada. Vi Varyon rechaçar as criaturas com golpes contundentes de sua magia. Qirin duelava com o primeiro Espectro lançando raios de energia luminosa em direção a ele. Mas eu percebi que eles não estavam conseguindo pará-los. Não importa o que fizessem eles continuavam avançando, mais e mais, esgotando as forças dos dois.

- Tire ela daqui! - Ouvi Qirin gritar por entre a tempestade, que parecia ter aumentado.

- Mestre o que o senhor vai ...

- Leve logo a garota! - Rugiu o velho, com sua voz estrondeando como um trovão. - Voltem! Saiam logo daqui! Vou atrasá-los!

Os espectros pareceram rir disso, pois um silvo gutural e ressonante ecoou pelo vale. Senti o chão tremer quando Varyon me puxou pelo braço correndo comigo pelo caminho que viemos. Uma luz branca fortíssima inundou o vale ao mesmo tempo que o som seco de pedras trincando, e, logo, de pedras desabando, abafaram o som da chuva. Varyon correu comigo desviando-se das pedras que caíam, mas logo ficou impossível, pois uma verdadeira avalanche despencou sobre nós. 

Novamente adotando uma postura altiva Varyon gritou algumas palavras e, com seus olhos brilhando, girou num eixo pisando cautelosamente com os pés, enquanto com os braços gesticulava num movimento que abarcava o mundo. Uma grande bolha de água se formou ao redor de nós dois aglutinando as gotas de chuva e quando as pedras caíram tiveram seu ímpeto retardado por conta da água que nos protegia. Vimos um novo clarão atrás de nós, e ouvimos o vento uivar pelas pedras que iam se acumulando nas laterais do vale.

Ao fim dele olhamos para trás e não restava mais nada, nem sinal de nosso mestre, pois a passagem que tínhamos usado foi completamente obstruída pelas pedras. Varyon estava completamente exausto, mas nos forçamos a continuar correndo, parando apenas muito depois, quando ele já não aguentava mais. Me explicou que a energia que ele havia gastado tinha sido demais para continuar agora, e não conseguiria continuar se não repusesse a energia perdida. Seu nariz e suas gengivas sangravam, sua pele estava mais vermelha que o normal, e tremores constantes percorriam seu corpo. Eu senti um aperto no coração, e senti que ia perdê-lo. Eu não queria perdê-lo. As lágrimas ameaçaram invadir meus olhos, mas quando ele percebeu ele pediu para que eu me acalmasse. Eu o abracei, ele me abraçou de volta.

Lembro do seu calor, do seu cheiro, do movimento do seu peito, da frequência do seu coração, dos seus dedos em minhas costas.

- Qirin está morto - eu murmurei.

- Eu sei - afirmou ele.

E nós dois choramos. Ajudei-o a caminhar, para sairmos da chuva. Encontramos uma grande árvore de raízes altas e nos enfiamos ali debaixo. As raízes eram elevadas o bastante para acendermos uma fogueira e nos aquecermos. Dormimos colados um no outro naquela noite, abraçados e tremendo.

Ele tinha dezessete, eu, treze.

Acordei na manhã seguinte com uma chuva moderada ainda caindo, e o calor do corpo de Varyon me aprazendo. Contudo, estava quente demais. Ele estava febril. Muito mais do que já tinha ficado quando tive de tratar de uma doença qualquer que ele já tivesse pego. Estava respirando vagarosamente, e uma expressão sofrida se refletia em seu cenho franzido, em seu lábio repuxado.

Eu tinha de fazer alguma coisa, tinha de fazer! Por isso fui procurar ervas que pudessem auxiliá-lo, encontrei e retornei para árvore que usávamos como acampamento. E ele não estava mais lá. Apenas as brasas da fogueira e as coisas que tínhamos, reviradas. Eu procurei por rastros, e não havia nenhum... e deveria ser fácil encontrar algum. Se houvesse algum... Estava chovendo, o chão estava enlameado, eu veria os rastros recentes! Mas não havia nada. Nada! Eu procurei ao redor, por um longo tempo... até me dar conta de que ele não estava mais lá. Chorei abraçada aos joelhos desesperada. Perdida. Chorei muito.

O dia avançou até a chuva parar, e, além disso, nada havia mudado. Eu estava sozinha, perdida na floresta que margeava o Vale do Caos, os sons da mata começaram a encher meus ouvidos, e a esperança já tinha escorrido por mim para dentro da terra, junto da água. Eu queria morrer, seria mais fácil se eu morresse, foi quando percebi marcas no tronco da árvore. Alguns galhos quebrados. Garras escalando... E não eram de nenhum animal que eu conhecesse.

Varyon estava vivo ainda! Seja lá onde estivesse, vivia, não havia porque estar morto, se tivesse de estar morto estaria morto aqui. Quem era ele? O que ele representava? Sorvi da terra minha esperança de volta e, com um milhão de perguntas na minha cabeça, recolhi nossas coisas.

Parti para a estrada mais próxima pela qual tínhamos passado. E estava decidida a procurar uma forma de encontrá-lo, sabia que não conseguiria fazer isso sozinha. Mas vou fazê-lo! Tenho de fazê-lo. Sou Sâmyla, a flor que traz a vida àqueles que acreditam que ela já foi perdida, e sou água assim como Varyon. Vou encontrá-lo. Tenho de encontrá-lo!

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7 de setembro de 2013

Livro (Em Processo) - Capítulo Dez d'Os Guardiões de Tarkataz

X
Uma roseira no gelo

A névoa fina da manhã ia se dissipando sob os primeiros raios de sol. Cachorros corriam pela praça do mercado a alguns metros abaixo. Através de suas pálpebras cansadas Hector observava a praça do mercado. Ergueu os olhos para as montanhas e ficou a admirar a beleza das rochas nuas enquanto dois de seus escravos o vestiam com as suntuosas vestes brancas e vermelhas do senado.
A mobília de madeira do quarto emanava um aroma delicado, como uma floresta úmida de orvalho. Um incenso exalava sua fragrância, enchendo o quarto com mais um cheiro, além do suor dos escravos, da comida da cozinha, da maresia do mar, do limo das pedras...
Enquanto o tecido leve deslizava sobre seu corpo nu, cobrindo-o, Hector refletia sobre a vida, sobre a guerra e sobre o futuro da república que ele tinha o intuito de melhorar.
Fora do quarto passos se aproximaram da porta. Era Narbo, seu escravo leal e o mais inteligente que conhecia. Com exceção de algumas poucas vezes, Narbo sempre acompanhava Hector, onde quer que estivesse. Fazia serviço de escriba, conselheiro, médico e tudo o mais que viesse a ser necessário. 
Ele era praticamente da mesma idade de seu senhor, tendo apenas alguns cabelos brancos.
- Senhor, mais três fazendeiros venderam suas terras e deixaram a cidade – disse ele com uma pequena folha de pergaminho na mão, presa a uma tábua. Sua voz era mais aguda do que sua idade determinava, mas não chegava a ser histérica. – Os números só fazem crescer.
- Bom dia Narbo... – resmungou Hector virando-se para o velho homem.
- Perdão. Bom dia senhor, veja...
- Pelos deuses! Problemas já a essa hora da manhã, o sol sequer surgiu inteiro. Maldita hora para o frasco se partir, esta pirataria deve ser estorvada.
Narbo o observava quieto, enquanto os dois escravos que o vestiam punham a faixa vermelha em seu ombro.
Andando na direção dele, Hector continuou. Com uma expressão desiludida disse:
- Continue dizendo o que tinha a dizer. Só me resta ouvir...
- Bem, alguns ex-senadores que apoiavam Túlius partiram durante a noite com seus pertences, família e escravos – disse Narbo, olhando então o papel em suas mãos e passando o dedo pelas linhas manuscritas completou – Dentre eles Adalberon, Damilis e Remus.
- Remus? – exclamou Hector indignado. Sentando-se na beirada da cama de mogno. – O que ele tem para me temer? O que ele espera que eu faça?
- Talvez ele pense que você deseja vingar-se das suas traições.
- Ah Remus... tolo Remus. Mande-os uma carta dizendo-os que voltem.
- A todos eles?
- Sim, a todos os que partiram. Escreva que eu, Hector, imperador de Orull, prometo tratá-los com o respeito com que trato qualquer outro amigo ou familiar. Seus cargos de senadores não serão retirados, nem nenhum de seus bens confiscados, ou qualquer um de seus familiares ameaçados ou perseguidos. Desde que eles não tenham em mente algum ato contra mim ou contra a república eles estarão são e salvos em meus braços e não precisarão ficar receosos com sua estadia em Orull. Escreva o seguinte ao fim: “A república está frágil como uma roseira na neve. E para que ela possa florescer é necessário que todos os homens orulianos trabalhem juntos para cuidar da delicada planta que é a nossa pátria. E eles são um  desses homens que eu preciso ao meu lado para dar-me suporte e força para cuidar da roseira até que chegue a primavera e ela possa seguir sozinha.”
Enquanto Narbo escrevia apressadamente o que Hector dizia a luz do sol adentrou completamente o quarto. E o incenso se consumiu transformando-se em apenas cinzas.
- A propósito... – disse Narbo mudando de assunto.
- Mais problemas? – Irritou-se Hector.
- Não, não... pelo contrário – disse Narbo sorrindo. – A reunião com os soldados, ontem de manhã correu perfeitamente. Todos os homens selecionados dispuseram-se a partir, comandados pelo capitão Victor Leonars. Embarcaram ontem mesmo e devem estar chegando neste momento.
- Ótimo! – Exclamou Hector, sorrindo radiante. – Todos se orgulharão disso ao retornarem como heróis, sem dúvida. E nossa pátria voltará a prosperar. Mas agora, vamos comer alguma coisa, estou faminto.
Ao terminar, os dois, junto a alguns escravos que esperavam do lado de fora, desceram as escadarias que os levava até o saguão, passando por alguns outros quartos e corredores. Às grandes portas de carvalho, entalhadas com diversos ramos foliados que se entrelaçavam em espirais intermináveis, uma guarda de vinte lictores aguardava a saída de Hector para levá-lo até o prédio do senado.
Entretanto, ao invés de seguirem até a porta, foram até o pátio, passando por pilastras cinzentas de ardósia azulada, espiraladas até o teto, com cerca de dois metros de altura, onde se contorciam em volutas beiradas de ouro.
O pátio era alguns degraus mais baixo do que restante do primeiro piso do castelo, que ao todo tinham três pisos utilizáveis, o restante se resumia a grandes torres, que eram usadas por magos em guerras, embora nunca tenham sido necessárias. A construção tinha sido feita em grande parte através da magia, durante a era da magocracia, há décadas atrás. Ainda se desconhecem todas as passagens do castelo. Recentemente um dos escravos afirmou ter encontrado uma passagem que levava até uma sala que roncava.  Mas o ronco vinha de algum lugar atrás de uma parede, onde não se podia chegar. 
Caminhando vagarosamente Hector sentou-se na mesa de madeira perto de chafariz, enquanto observava pássaros e borboletas brincando pelos arbustos e árvores do jardim. O pátio era enorme, e lá havia uma infinidade de plantas: roseiras, parreiras, pessegueiros, romãs, cerejeiras, tulipas, copos-de-leite, e uma infinidade de outras plantas. O homem que as havia plantado e arranjado em canteiros fizera, sem dúvida, um ótimo trabalho.
Hector observava ao redor, reparando minuciosamente em cada detalhe que lhe cercava. Esforçava-se ao máximo para abstrair dos pensamentos revoltos que o afligiam ultimamente. Passava os olhos analisando as curvas das estátuas que enfeitavam os canteiros, e ficou a maior parte do tempo observando uma jovem bela, nua, esculpida em um mármore levemente rosado, que lhe avivava, tanto, que podia se passar por viva.
O imperador se concentrou na figura da jovem que estava em total harmonia com o jardim ao redor. Finos ramos lhe cobriam o corpo, trepadeiras lhe subiam até a panturrilha exibindo minúsculas flores amarelas. Sobre sua cabeça o pessegueiro lhe lançava a sombra. O que mais chamou a atenção de Hector era a roseira que nascia por detrás dela. Suas pétalas tinham o mesmo tom da pele da jovem moça de cabelos longos, e um de seus botões crescia entre suas mãos de tal modo estavam ligadas, planta e garota, que dada a sua posição parecia que ela puxava a flor para si, afim de sentir seu aroma.
- Aqui está sua comida meu senhor – disse um escravo apoiando uma grande travessa com geléias, pães, mel, vinho, chás, frutas cortadas e fatias de bolo e tortas.
- Onde está minha mulher? – Perguntou ele a Narbo, sem mover nenhum músculo além dos que precisava.
Erguendo uma sobrancelha, este, que estava a alguns metros atrás de Hector respondeu:
- Ela viajou, ontem pela manhã, para Gondelhan senhor. Com suas escravas, para fazer compras... Não está lembrado? – perguntou ele tentando não expressar irreverência ou desrespeito. – Voltará esta tarde.
- Ah... – foi a resposta de um indiferente e transtornado Hector.
- Senhor, espero que esteja bem, deseja algo além do que lhe foi dado?
- Não Narbo, estou bem. Sente-se comigo e coma algo, me sinto sozinho, é só.
- Se assim deseja – respondeu ele, e sentou. – Se quiser conversar sobre algo que lhe atormenta, esteja à vontade.
Passado alguns segundo, sem nada comer, Hector levantou-se e caminhou ao redor do chafariz, até parar frente a frente com a jovem.
- É estranho...  – disse ele à Narbo, que se levantara e o seguia. – Pensam em mim como um tirano, não era minha intenção a morte de meu amigo Túlius. Eu o perdoaria. E agora Remus, que eu considerava como um filho para mim. Estão todos se afastando, me temendo. 
Fez-se uma pausa.
- Eu não devia estar me questionando sobre essas coisas, sei que minhas intenções são as melhores para o bem da república. Você sabe. Não sabe? Narbo.
Mirando sua nuca, assustado, Narbo afirma com um sussurro e repete em voz alta:
- Claro senhor! Reconheço suas ações, dignas elas são, sem dúvida... sem dúvida.
- Preciso mostrar a todos minhas verdadeira intenções. Evoluir, engrandecer, melhorar e fazer prosperar a república. Quero justiça e paz para todos.
- E isso terá. Use suas palavras hoje no senado, se suas palavras não forem o bastante, ainda tens um exército pronto para lutar ao seu lado.
Virando-se radiante, encarando Narbo disse, recobrando sua altivez:
- Tem toda a razão. Obrigado Narbo, não se esqueça das cartas. Tenho trabalho a fazer.
Deixando o pátio, Narbo e a jovem moça para trás, Hector caminhou em passos largos até as grandes portas, onde os lictores sentados se levantaram rapidamente, e abriram passagem para ele, que saiu para o mercado barulhento sendo cercado pelos vinte homens. Muitas pessoas paravam para olhar a comitiva passando por entre as barracas. Hector sorria para o povo que ou lhe acenava alegremente, fazendo reverências e assoviando, ou cuspiam no chão disfarçadamente fechando a cara.
Subindo os degraus do senado os lictores se espalharam postando-se dois a dois entre as colunas, com seus escudos defendendo-lhes o ventre e o tórax.
Hector adentrou a sala redonda, guardada por alguns soldados, no corredor ainda havia alguns senadores, patrícios velhos representantes de importantes famílias. Lá dentro uma grande cadeira que se assemelhava a um trono fora posta no topo de dois degraus, destinada ao traseiro de Hector, desde que fora nomeado imperador, por pressão ao senado.
Nas paredes havia fileiras de bancos de pedra que acompanhavam seu formato circular, como na Arena. Alguns senadores já estavam em seus lugares, lá estava também o Senhor de Guerra Frederic, também leal à Hector. Com uma piscadela aquele o cumprimentou quando esse sentou-se na grande cadeira acolchoada.
Nesse instante os senadores começaram a assumir seus assentos, cerca de metade dos senadores, ou mais, não estava lá. O que acreditava Hector ser pelo mesmo motivo de seu grande amigo Remus. Mas ainda haviam muitos outros ligados a Túlius.
Um homem muito velho regia a reunião. Ele tinha a voz muito arrastada e rouca, seus cabelos rareavam e as rugas lhe cobriam todo o rosto.
- Com a palavra – começou ele, batendo com um cajado três vezes no chão. – o senado ouvirá primeiro o imperador Hector Fevirus Julian.
Os senadores calados observaram o imperador se levantar, apoiando-se nos joelhos. Parado no lugar, virou a cabeça em todas as direções, mirando fundo nos olhos dos homens que lá estavam.
- Senhores, - disse ele fazendo um sinal com as mãos. – nossa república tem andado enferma. Afirmo isso por conta das desigualdades explicitas nas nossas ruas – pontuando cada frase, Hector impunha sua voz ecoante, dando um espaço para mirar os homens em cada vírgula ou ponto. – Nosso povo sofre com a miséria, com a fome e com a doença. E eu não acho justo uma divisão tão desigual de poder. Eles são a maioria em nossa cidade, e merecem ser tratados com o mínimo de honra e dignidade...
Os homens começavam a se entreolhar, alguns cochichando. Levantando mais a voz, Hector prosseguiu:
- É por isso que estou aqui! Desejo proporcionar honra, paz, dignidade, igualdade, liberdade e direitos para os cidadãos. Esses atos de pirataria têm arruinado o comércio, e o povo está obviamente furioso por conta disso, sei que alguns de vocês também, e é por isso que foi mandada a nossa última tropa para a ilha de Tarkataz. Os Guardiões de Tarkataz eles são. E esperamos que obtenham sucesso em sua missão.
“Muitos de vocês lutaram contra mim, em minha tentativa de guiar Orull para a primavera dos tempos, onde a república evoluirá para um patamar nunca atingido, de glória e prosperidade. Mas isso não é mais um problema, pois aqui estamos. Eu convoco todos os aqui presentes para se unirem a mim nessa empreitada tão difícil para um único homem trilhar sozinho. Convoco o amor e lealdade de vocês pela pátria e pela república. Convoco a generosidade para com as classes miseráveis. Tudo o que desejo é guiar a república pelas estradas da igualdade, e da prosperidade.”
“Saibam que todos aqueles que estiverem ao meu lado terão as velhas desavenças esquecidas, contudo Orull jamais perdoaria um segundo ato desleal ou infiel por vossa parte. Pergunto-lhes, pois, quem está a favor e quem está contra a república?”
Os senadores estavam imobilizados... Alguns aceitaram de cara, batendo palmas com energia e vontade. Hector observava-os com um olhar quente como a lava que saía do Monte Flamejante. O ar se tornara pesado, ele falou coisas que seria impensável para os nobres, afinal, o que os diferia das outras classes era o que os interessava, fazer escravos, ter terras, dinheiro... Poder!
A proposta de igualdade, era o ato mais terrível que se poderia ter cometido, mas nenhum dos senadores jamais recusaria por conta da ameaça implícita em seu discurso. E ele sabia disso.
- A proposta foi aceita com unanimidade – disse o velho, com sua voz arrastada, depois que todos os senadores haviam batido palmas, sem nenhuma objeção. – Ouçamos então o restante.

- No senado, hoje, o imperador Hector Fevirus Julian decretou que cada cidadão de Orull receberá do tesouro público, amanhã,  em seu castelo, a quantia de cem moedas de prata! – Quem dizia isso era o arauto. Sobre as escadas do Senado, gritava, enquanto gesticulava com os braços, para uma multidão eufórica que pararam seus afazeres para ouvir a proclamação. – Além disso, algumas famílias merecedoras receberão fazendas na encosta da Cordilheira Sangrenta! – Mais gritos e vivas explodiram do povo. – E para concluir, no próximo ano, todos os aluguéis nas partes baixas da cidade serão pagos integralmente!

26 de agosto de 2013

RPG - Background de Personagem para um mundo Medieval Fantástico

Nasci em um vilarejo perto das Terras Secas... Longe das Terras de Pedra, nas Terras do Verde.

Compartilhava a floresta com o restante de seus naturais, sob a sombra das montanhas rubras, num pequeno bosque. Ilhado numa pradaria extensa na qual poucos de nós se aventuravam, por conta dos coiotes que espreitavam à noite e as criaturas mal encaradas que habitavam aqueles campos.

Tínhamos nossos costumes, nossos modos de ser, nossas canções e danças... nossas tradições... mas isso há muito tempo atrás. Não sei quando nem como, na verdade ninguém de meu povo sabe... apenas aconteceu... Num passado incerto algum dos nossos ancestrais nos abençoou, ou amaldiçoou, com o poder das feras... 

Nos tornamos quase tão animais quanto as próprias criaturas do bosque. Nos transformamos em parte da floresta... nos transformamos em selvagens! Algumas famílias já perderam seu juízo e perambulam, pelas árvores ou pelo campo, caçando, como verdadeiros animais... Por algum motivo eu sou diferente...

Reuni alguns de nosso povo, que ainda podiam raciocinar, e ainda vivemos com parte de nosso antigo modo de vida, lutando, com tristeza em nossos corações, contra alguns dos antigos nossos que vinham roubar nossa comida ou alguma de nossas crianças desprotegidas.

Parti, avançando sobre os ermos campos secos, e sobre os corpos daqueles que se opuseram a minha fúria, buscando ajuda para minha raça... Ou conselhos de um sábio amigo. Meu povo não tem condições de seguir-me e é por isso que caminho só... com o vento a açoitar meus fartos cabelos, e a relva a roçar em minhas pernas. Carrego comigo o meu e outro espírito que consegui, com árduo esforço, controlar, mas que em momentos de descontrole nem mesmo eu posso derrotá-lo.

Já caminhei por alguns povos de pedra, e alguns do verde como o meu. Encontrei estranhas coisas em meu caminho, coisas que não conhecia... e que agora temo.

Minha história não pode terminar antes de eu encontrar a salvação para o meu povo. Tenho que poder retornar antes que todos tenham tornado-se em feras incontroláveis. Busco ainda por pistas... e já descobri  algumas... mas nada muito conciso. 

Preciso da verdade que os homens talvez já desconheçam.

20 de agosto de 2013

Projeto Vivendo a História




Um projeto pedagógico que pretende aprimorar a desenvoltura dos jovens amantes de história, de maneira lúdica e ao mesmo tempo educativa e produtiva! Quando digo isso é por que o projeto, mais do que uma simples aula de história, carrega os alunos para dentro da própria história, apresentando a eles o mundo fantástico da idade Antiga e Média, tentando desmitificar todos os conceitos errôneos que são construídos ao longo do tempo através de clichês e anacronismos enraizados no nosso imaginário.

O projeto visa mostrar os encantos, as épicas aventuras, os complexos jogos políticos, as guerras santas, os rituais antigos, a mitologia de forma igualmente instigante. Os participantes criam para si, após uma construção coletiva do cenário e do imaginário da época em questão, personagens que poderiam ter vivido naquela época, naquelas terras, e passam a conviver, ao longo das aulas, com figuras históricas que realmente existiram, e a reviver momentos podendo compreender, mais de perto, como eles se deram, e como se desenrolaram.

Procurem por mais informações na Página do Facebook! E divirtam-se.

19 de agosto de 2013

Fanfic do livro O Nome do Vento - Uma festa de três partes

Noite outra vez. A Pousada Marco do Percurso estava em festa, e era uma festa em três partes.

A parte mais óbvia era da multidão que ali estava, que emanava seu calor, sua energia dilatada pela cerveja e pela dança. Numa infinidade de sentimentos e desejos, seus risos espantavam o malfazejo e penetravam profundamente em cada ranhura do assoalho deixando um rastro de essências inodoras imiscuírem-se indefinidamente em cada olhar, em cada gesto, em cada passo. Como o sol da primeira manhã de primavera vem derreter a geada do inverno que passa, as gentes vêm para comemorar o realizado, para brindar à nova era, para celebrar. Como se é esperado num recinto cujo objetivo é fulgir os recônditos da noite com música… e é claro que havia música!

Dentro da pousada estava eu, encolhido num canto do bar, terminando de revisar o restante dos meus escritos. Com as mãos ainda sujas de tinta e bebericando cautelosamente o vinho que peguei de um dos barris de carvalho atrás do balcão. Evitava prender-me a preocupações inquietantes e observava os rostos e trejeitos dos indivíduos que, até então, apenas tinha ouvido histórias. Ouso afirmar que a segunda parte da festa era minha, uma parte, em suma, desimportante do todo maior e mais denso. Contudo, me sentia, sim, um pedacinho, um fragmento, um resquício que fosse daquela história. Porque escrevê-la me fez vivê-la e me permitiu consolidá-la. Levá-la adiante. Imortalizá-la.

A terceira festa era fácil de se notar. Se você passasse uma hora escutando, talvez começasse a senti-la no ar que entra e sai do seu nariz, no ritmo em que se contrai o seu coração, no vapor que se condensa na janela. Ela estava nas labaredas que faziam a madeira na lareira estalar e embranquecer. Estava no lento vaivém de um casal que dançava enlevado frente ao tablado. E estava nas mãos do homem ali sentado, que dedilhava faceto as cordas dum alaúde, já um tanto usado, sob o olhar encantador e encantado de uma mulher. De sua mulher.

O homem tinha cabelos ruivos de verdade, vermelhos como a chama. Seus olhos eram escuros e, encontrados com os da moça de cabelos negros, refletiam a felicidade que transbordava dele. Ele tocava com a segurança sutil de quem realizou muitas coisas, de quem sabe muitas coisas, de quem foi muitas coisas.

Deles era a Pousada Marco do Percurso, como deles também era a terceira festa. Era apropriado que assim fosse, pois essa era a maior festa das três, englobando todas as outras dentro de si. Era abundante e palpável, sem dúvida, como o início da primavera, que trazia a reconfortante brisa quente após um inverno pungente de dias infaustos. Leve como o pólen carregado pelo vento. Era som vibrante – som de flor desabrochada – do homem que celebra a vida.

Todo o transtorno que afligia aquele homem quando o conheci, enquanto escrevia sua história, havia sido extirpado por fim. Suas feições se abrandaram. Seu sorriso veio cada vez com mais frequência. E agora ele radiava face a face com sua amada, que, sentada ao seu lado, acariciava seu joelho delicadamente, num carinho tenro de jovens amantes.

Ainda tocando ele retribuiu o gracejo, e beijou-a suavemente nos lábios. Ela disse-lhe algo ao ouvido e se levantou. Altiva e exuberante. A atmosfera do salão era da mais refinada harmonia, as notas de seu alaúde se integravam a cada movimento executado, pontuavam cada frase proferida. E conforme a dama caminhava pelo salão a canção parecia segui-la e se intensificar, mas ainda assim ela passou desapercebida pela multidão. Sorriu para mim, um sorriso doce e meigo. Um sorriso jovem, um sorriso vivo e contagiante. Me vi sorrindo de volta, da melhor forma que pude, enquanto ela seguia para os quartos.

Os olhos dele a acompanhavam, e recaíram sobre mim quando ela desapareceu às minhas costas. Eu sorri e ergui minha taça à ele. Ele sorriu de volta e vi todo o êxtase contido, toda a euforia acumulada explodindo de uma só vez numa imensa onda de satisfação.

Esta é uma homenagem que faço ao meu amigo Kvothe e sua esposa Denna.

Ass.:O Cronista.

Durante toda a Bienal 2013,  20  textos escolhidos estarão disponíveis para serem votados. Infelizmente, este não foi um dos selecionados Não deixem de dar uma olhada na área #acampamentonabienal  que acontecerá todos os dias. E lá, votem nos textos que mais gostarem!

Acampamento na bienal

13 de agosto de 2013

Conto - Invasão de Birkanturg

Gelo, honra e sangue

Um dia frio. Um cavaleiro aproximava-se ao longe, sob a chuva que chapinhava seu caminho e enlameava sua túnica. Trazia consigo uma mensagem terrível: O rei Golverberix havia falecido. As rédeas em suas mãos queimavam como brasa por conta dos dias que passara cavalgando.

De cima das muralhas baixas do forte um homem avistou o cavaleiro e, reconhecendo o símbolo manchado de sangue e lama em sua túnica, correu para os portões ordenando que os abrissem.

Soldados aglomeraram-se ao redor da grande entrada de pedra, e ergueram as grades levadiças, fazendo suas correntes rangerem estridentemente. A água pingava e escorria e o alarido dos homens atarefados com as correntes e trancas de madeira encheram o ar. Logo todos os soldados do forte prestavam atenção no portão do Oeste.

O cavaleiro, ao entrar, despencou de seu cavalo. Uma ferida profunda tentava roubar-lhe a vida. Suas luvas e mãos estavam rasgadas e ensanguentadas.

- Chamem um curandeiro! – Gritou um dos soldados. Enquanto o capitão de Birkanturg, se aproximava.

Berrik abaixou-se ao lado do cavaleiro moribundo para retirar sua bolsa de mensageiro. O homem ergueu os olhos para o capitão neste momento, agarrando sua túnica com força. O capitão levou a mão à espada, mas o homem caiu morto novamente, antes que o aço pudesse deixar a bainha.

- Pelos deuses! – Exclamou Berrik assustado.

- O que diabos foi isso senhor? – Perguntou uma voz de detrás dele.

Aguardando mais alguns instantes o capitão voltou a retirar a bolsa do pescoço do homem morto. Afastou-se e leu a carta em voz alta, enquanto o curandeiro, com suas túnicas brancas corria em direção ao monte de homens para verificar o corpo do sujeito que chegara moribundo.

As letras foram escritas rapidamente e estavam manchadas e borradas por causa da chuva, mas sua mensagem terrível ainda podia ser compreendida. North-Rowüll fora conquistada,  o rei do norte estava morto, Golverberix lutou bravamente contra os invasores sulistas e faleceu no acampamento deles, como um inválido. Sequer tivera a honra de morrer lutando. Morreu para aprazer a sede de sangue dos homens que querem terras.

- Nós vamos vingar a morte de nosso rei! – Rugiu Berrik furioso. Sua carranca de fúria se contorcia sobre as gotas grossas de água que voltavam a cair.

Os homens bradaram junto com ele.

- Gelo! Honra! Sangue! – Gritaram os soldados, urrando o lema de seu povo. – GELO, HONRA, SANGUE! – Eles fizeram a fortaleza reverberar com o rugido de seus corações e o restumbante som do aço sobre a madeira de suas espadas e escudos.

~*~*~*~

No fim do mesmo dia já se ouviam os tambores do inimigo ao longe, e o vozerio da tropa que se aproximava. Cerca de dois mil homens bradavam e cantavam vindos do leste.

- Estes vermes carregam em suas costas o peso das almas de nossos homens e mulheres! – Gritou Berrik de cima das muralhas. – Vamos fazer a eles o favor de retirar esse pesado fardo, cortando suas gargantas, e arrancando suas vísceras com nossas espadas! Vamos deixá-los experimentar o gosto de nosso aço! – Rugiu novamente, e com ele seus soldados.

A chuva caía numa torrente incessante, encharcando os homens. Suas armaduras retininam com as gotas, e a visão se turvava a distância. Mas o vermelho-sangue do uniforme inimigo destoava da paisagem nevada no sopé da montanha onde se escondia o forte. Lá dentro organizavam pequenos grupos e preparavam-se para o combate iminente.
Contudo os corações duros e gelados dos homens do norte clamava pelo sangue de seu inimigo. E quando este arremeteu contra as muralhas de Birkanturg os nortenhos fizeram chover junto com a água, flechas, e o sangue começava a empoçar-se no chão, e correr para baixo nas fendas da rocha.

Com os escudos erguidos tentavam proteger-se das flechas, ao mesmo tempo que tentavam romper o portão. O ranger da grande porta unia-se ao cântico fúnebre que erguia-se da montanha. Logo o fogo tomou conta de dentro e de fora do forte. O fogo mágico que a chuva não bastava para apagar. Foi quando recuaram para descansar depois do combate do dia.

Os homens recolheram seus corpos para dentro das muralhas, aqueles que tinham sido abatidos pelos magos ou pelos arqueiros inimigos, cuja vida já não podia mais ser salva, mas saudada com glória pela coragem e honra de lutar na guerra que os libertaria das garras do povo do sul.

Os xamãs de seu povo apagaram os fogos e cuidaram dos feridos. O exército inimigo voltou a reunir-se na base da montanha, e Berrik convocou suas poucas centenas de homens que tinham restado daquele dia sangrento. E que certamente não restariam num segundo dia, e os convocou para atacar. E extirpar da terra o máximo de homens que fossem capazes.

Passaram algumas horas preparando os funerais dos falecidos, prestaram-lhes as homenagens devidas dentro do costume de seu povo e partiram. Com a benção de seus deuses esgueiraram-se portão afora, e correram pelas montanhas em silêncio caindo com suas armas em chamas sobre seus inimigos que dormiam.

Não houve tempo de aviso. Os soldados de Birkanturg entoaram sua canção de guerra, e como um trovão devastaram o exército inimigo. Os deuses os acompanharam, pois os céus negros da noite tinham obscurecido sua presença para seus inimigos. E apenas quando os relâmpagos cortavam o céu nebuloso era que as carrancas de fúria dos homens do norte eram vistas, cada vez mais ferozes.

Cada vez mais terríveis.

Os relâmpagos mostravam os mortos, e logo o fogo os iluminava. Os magos inimigos reuniram-se no centro do acampamento, e logo foram cercados pelos soldados que tentavam se juntar e se por à postos, em formação.

Trovões atingiram o acampamento, e explodiram em luz e chamas. Os feiticeiros trataram de afastar as descargas, enquanto numa única investida conduziram seus soldados à frente. Um a um os nortenhos caíram. A chama de seus olhos extinguia-se, suas armas deixavam seus punhos, e a glória da guerra os alcançava.

A morte valorosa que tanto esperavam aproximou-se deles na forma de escudos e lâminas. Era o fim da guerra. Birkanturg caíra. Assim como o rei, assim como o restante de todo o norte.

Berrik vislumbrou o trovão que atingiu o centro do acampamento inimigo, assassinando os magos e guerreiros que lá estavam. E satisfez-se com os dezesseis homens que matara antes de ser atingido pela espadada mortal em sua nuca. Sempre desleais, pensou, enquanto o chão e as trevas se aproximavam. Ouviu um último trovão antes de unir-se aos deuses e a seu antigo rei.

Gelo, honra e sangue!

12 de agosto de 2013

Livro (Em Processo) - Capítulo Um d'Os Guardiões de Tarkataz

Theodor havia deixado a estradinha de terra batida que o levaria de volta para casa já há algumas horas. Ele agora caminhava por entre as árvores que circundavam toda aquela região. Pequenos arbustos compunham a paisagem ao redor com suas flores ainda para desabrochar.
A lua, quase cheia, pairava no céu, lançando sobre a floresta raios prateados que perfuravam as copas das árvores e atingiam o solo com suavidade, iluminando fracamente o caminho que Theodor ia seguindo por entre os ramos que puxavam suas roupas.
As criaturas noturnas passavam como vultos ao seu redor. Ele ouvia o som de pequenos animas correndo sobre as folhas secas. E ouvia as folhas das árvores farfalhando acima de sua cabeça. Uma coruja pousou em um galho a sua frente e de lá ficou observando-o passar, com aqueles olhos esbugalhados, girando sua cabeça para trás até perdê-lo de vista.
As árvores começaram a ficar mais esparsas e a luminosidade havia melhorado assim que ele atingiu o pé da primeira colina, que se estendia ao longe, para os lados e para cima. Ele estava já mais perto de casa.
Agora que tinha chegado ao sopé das colinas Theodor decidiu dormir. Aquele dia de caminhada incessante cansou seu corpo. Ele então parou. Esfregou o suor da testa, jogou suas coisas no chão e acendeu uma fogueira com alguns galhos que havia recolhido pelo caminho. Preparou uma rápida refeição. Estendeu seu saco de dormir no chão, pôs sua espada em baixo do cobertor, na altura de sua mão, e adormeceu contemplando a abóbada estrelada que se opunha a ele confrontando-o.

Na manhã seguinte ele foi acordado pelo canto de alguns pássaros nas árvores perto dali. Levantou-se depressa e arrumou suas coisas. Prendeu sua espada, sem bainha, de volta ao seu cinto, pôs sua mochila nas costas, jogou seu camisão de cota de malha por cima dela - não queria vesti-lo para evitar o calor do metal e também porque naquelas terras não haveria necessidade. Com o pé jogou um pouco de terra em cima das brasas que ainda ardiam timidamente na fogueira, estalando e lançando ao céu um fino fio de fumaça.
Começou, então, a subir a colina, não era muito íngreme, mas o orvalho na grama tornava-a um pouco escorregadia, dificultando o princípio da caminhada. Ao mesmo tempo, o Sol aparecia a sua frente, imponente, tão grande e belo, acariciando sua face com os primeiros raios da manhã.
Theodor havia deixado a estrada na noite anterior, porque havia decidido que queria ver sua cidade de cima, para que, de longe, pudesse admirar sua beleza. Afinal, fazia dois anos que ele havia deixado Fortheit para servir ao exército em Orull, a capital do reino. E ele se perguntava a cada passo que dava como estaria agora a sua cidade, na qual nasceu e cresceu. Queria saber se o moinho onde tanto brincava quando criança ainda estava do mesmo jeito. Se o Sr. Fillus ainda estava tão rabugento, ele vivia reclamando quando Theodor, Nillah e Leon entravam em sua fazenda para cavalgar em seus cavalos. Imaginava como estaria seu velho avô, com aqueles acessos de tosse, aquela voz rouca e cansada de tantos anos de trabalho na fazenda, se sua querida mãe ainda preservava aquela beleza jovial. E sentia falta também do seu arco de teixo, que ele mesmo fez.
Theodor era um bom arqueiro. Quando a fazenda não dava lucro o suficiente para que sua família comprasse carne no açougueiro da vila, era ele que saía para caçar. Costumava passar algumas noites fora, em busca de um pequeno bando de cervos, ou mamíferos menores, mas não houve uma só vez que tivesse voltado de mãos vazias para casa.
Havia algumas árvores espalhadas aleatoriamente, cobrindo toda a extensão das Colinas Verdejantes. Seus troncos eram finos e retorcidos, suas copas desprovidas de muitas folhas e havia incontáveis pássaros coloridos sobrevoando-as. Eles cantavam músicas alegres enquanto brincavam uns com os outros e alimentavam seus filhotes famintos dentro dos ninhos. Um magnífico céu azul se erguia no horizonte por trás do verde das colinas. O dia estava claro e com poucas nuvens.
Theodor subia com dificuldade por conta do peso da mochila. Sua espada balançava em sua cintura refletindo a forte luz do sol e sua armadura tilintava em suas costas, sua longa sombra se esticava até a planície perdendo-se em meio à floresta.
Estava caminhando já a cerca de meia hora quando chegou ao topo daquela colina. De lá pôde ter uma boa visão de todos os arredores. Atrás dele havia um mar de árvores enormes e frondosas, cortado pela estradinha de terra que serpenteava por entre elas circulando as colinas. Muito ao norte ele podia ver Stronghtköld, uma cordilheira de montanhas enormes, mais de dez vezes maiores que as humildes Colinas Verdejantes. A esta distância as montanhas não passavam de pequenas protuberâncias no horizonte. Enquanto Theodor estava em Orull ele ouvia bardos contando histórias sobre elas serem capazes de perfurar os céus, e em algumas outras que elas eram habitadas por anões, as quais ele julgava mais sensatas – Afinal, perfurar o céu... – pensava. E a frente era capaz de ver apenas uma infinidade de colinas que se perdiam no horizonte até se confundirem com o céu.
Estimulado pelo pensamento de poder estar de volta à sua casa, Theodor redobrou os passos na direção de sua cidade. Um casal de coelhos correu para suas tocas ao vê-lo se aproximar. Ele observou os buracos, curioso, e olhou de novo para Stronghtköld, pensando se haveriam de fato anões no interior daquelas montanhas, e como teriam feito túneis, cidades, fortalezas e etc. por debaixo de uma montanha... A habilidade necessária para isso seria algo incomparável. Theodor fez questão de se abaixar e olhar pra dentro da toca dos coelhos, mas tudo o que viu foi o escuro, e talvez o que seria o focinho de um deles.
Ele se lembrou das histórias fantásticas que Frinn, o Bardo, contava durante sua estada em Orull. As histórias sobre elfos, que habitavam o interior d’As Florestas Azuis, um povo alegre e exótico, com orelhas pontudas. Anões, homens baixinhos e carrancudos que viviam sob as pedras. Orcs seres que aparentavam ser homens selvagens, altos e musculosos, com presas protuberantes, e pele verde-acinzentada. E tudo o mais, como dragões, sereias, fadas, centauros, tartarugas do tamanho de ilhotas. Mas Theodor nunca havia visto nada disso. Ele uma vez havia perguntado a Frinn o porquê, mas ele simplesmente respondeu – Tempos difíceis, meu rapaz... As mudanças no mundo, apenas o tempo é quem as traz. Mas se porventura tentar trazê-las tu mesmo, tome cuidado com o que faz! – e continuou tomando sua cerveja.

Horas depois, a paisagem quase sempre a mesma, grama baixa e árvores de pequeno porte se estendendo em todas as direções. O sol já estava alto no céu e a barriga de Theodor roncava de fome, eventualmente. Ele estava louco para chegar em casa logo e comer um delicioso ensopado que só sua mãe sabia fazer, com raízes, batatas e temperos.
O suor escorria pelo lado de seu rosto e rapidamente se evaporava, deixando finas camadas de sal onde antes traçavam sua descida. Seus cabelos, não muito curtos, estavam começando a grudar em sua testa, e sua respiração estava forte. Soltou o seu cantil do cinto e bebeu os últimos goles que ainda lhe restavam. Ele sabia que chegaria à sua casa em algumas horas, portanto não precisaria mais da água armazenada ali com tanto custo.
Conforme ele subia e descia as colinas, o sol se movia, passando sobre a sua cabeça, até ficar atrás dele e começar a se por. Ia em direção a onde estaria o Mar do Oeste, tingindo o céu com tons de rosa e laranja. Ao longe Theodor pôde ver a fenda na qual se encontrava sua cidade. Finas linhas de fumaça saíam do vale e iam subindo até se perderem no céu, que ia ficando cada vez mais escuro. Um vento frio agora soprava aconchegando Theodor depois do dia quente de caminhada, e fazendo a grama baixa dançar ao seu redor.
Ele apertou o passo e cobriu todo o espaço que o separava da cidade rapidamente. Nos últimos metros ele correu, estava eufórico, contente e muito ansioso. Ele já ouvia o som do rio que cortava o vale, gorgolejando lá em baixo. E, então, finalmente, dois longos anos depois, ele poderia ver sua terra natal novamente. Foi andando até que, por fim, ele pôde ver.
Escondida pelas colinas estava a cidade, escura. Casebres de madeira construídos desordenadamente formavam ruelas e becos por quase todo o vale. Nos extremos da cidade havia grandes campos de trigo, arroz, milho e algumas outras poucas variedades de cereais. No extremo sul da cidade Theodor via o estábulo e atrás dele um grande pasto, no qual repousavam lembranças alegres da sua infância, formando montículos escuros sobre a grama. Mais ao sul, no cais, além dos já conhecidos barcos pesqueiros, havia grandes embarcações, aparentemente de comércio. Fortheit era conhecida pelo seu comércio de grãos, e mercadores de vários lugares vinham para fazer comércio. Ao redor da ponte que dividia o rio, em ambas as margens, havia algumas estacas e tábuas de madeira montando pequenas barracas, aonde, pela manhã, as pessoas venderiam suas coisas ou trocariam por algo que lhes faltasse. O mercado. Mais além estavam as casas de seus amigos Nillah e Leon. E na outra direção, no sopé de uma colina estava a sua pequena propriedade, aonde ele, sua mãe e seu avô cultivavam alguns legumes e frutas, em maior parte para seu próprio uso.
Fortheit era uma das grandes cidades do reino. Tinha tavernas para que os viajantes e comerciantes pudessem se hospedar, um ferreiro que produzia, vendia e reparava artefatos de metal e alguns outros tipos de objetos. Havia manufaturas, inclusive costureiras e sapateiros. Era uma cidade próspera e abrigava uma grande variedade de pessoas que compartilhava de costumes e características semelhantes.
Theodor desceu correndo a encosta. Atrapalhado de tanta euforia acabou escorregando, mas conseguiu se por de pé novamente e continuar. Atravessou a ponte de madeira que unia os dois lados da cidade. Passando pelo moinho, e pelo meio do mercado. Algumas das casas ainda estavam acesas, sombras tremeluzentes se projetavam no chão a partir de, provavelmente, velas ou lareiras. Theodor atravessou a ponte e se agachou perto do rio, com as duas mãos em forma de concha bebeu alguns goles de água, não que estivesse com sede, mas apenas para se lembrar de como era bom estar de volta em casa. E então continuou andando.

Sua casa era uma pequena construção de madeira pedras e barro, nos limites do vale, coberta por um telhado de sapê. Ao lado da casa havia um pequeno galpão, onde ficavam alguns animais que a família possuía. E, nos fundos, por trás da casa, ficava a pequena plantação. Havia algumas ferramentas espalhadas pela varanda, pedaços de madeira, martelos, pás, enxadas e etc.. Ele foi até a porta e a abriu. Ela produziu um som áspero e penetrante e logo em seguida ele ouviu um baque na madeira em algum lugar da casa escura. Ele ouviu mais uma vez o ranger de uma porta e logo em seguida uma voz feminina, segura e confiante:
- Quem está aí? – a voz vinha do fundo do aposento.
- Mãe? É você? – perguntou Theodor desejoso.
- Theodor? – a voz respondeu – Meu filho?
Com a porta ainda aberta atrás dele, a luz da lua iluminava a entrada do aposento. Uma mulher veio andando em passos largos até a porta, com os braços abertos e lágrimas resplandecentes rolando abaixo em sua face. Theodor largou sua mochila no chão e abraçou sua mãe, no mais puro gesto de afeto.
- Meu filho! Por Fridda! Como você está? Já faz dois anos – ela chorava de felicidade – Você cresceu! Venha até a mesa deixe-me acender uma lanterna e ver você direito! Estou tão feliz...
- Eu também estou muito feliz mãe, estou bem, mas se passou muito tempo. Mal espero para me encontrar com Nillah e Leon. Como eles estão? – ele falava enquanto iam para a cozinha, ele sentou-se em uma cadeira e sua mãe procurou pelo óleo para acender a lanterna. Dois estalos foram ouvidos e então a luz das chamas invadiu todo o aposento. A mãe de Theodor fez uma cara de espanto. – O que foi?
- Você! Não é mais meu garotinho...
- Mamãe. Por favor, já tenho 18 anos.
- Está forte, sua barba está grande, e que cicatriz é essa no seu ombro, o que houve? – Sua mãe ia inspecionando cada centímetro do seu corpo com seus olhos atentos. Ela era uma mulher de meia idade, tinha longos cabelos cor de mel, e olhos amendoados da mesma tonalidade, características passadas para Theodor. Ele tinha cabelos num tom castanho claro, belas feições e seus olhos eram um pouco puxados. Seu rosto estava com um aspecto selvagem por conta da barba espessa que agora cobria toda a parte inferior da sua face. Seu corpo foi moldado pelo intenso treinamento militar. Ele adquiriu um porte mais orgulhoso e maduro do que o que sua mãe conhecia antes dele partir, o que aparentemente a desapontou profundamente.
- É uma longa história tudo isso mãe. Ao chegar a Orull eu e os outros recrutas fomos levados para uma área de treinamento. Ficamos todos alojados lá. Todo dia de manhã tínhamos que completar um circuito de tarefas físicas dificílimas, mas com o tempo eu fui me acostumando...
- Eles machucaram vocês?
- Mãe...
- Desculpa. – disse ela tentando se controlar.
- Enfim, nós tínhamos treinamentos com armas, nos quais eu me saia muito bem. Nos treinos de arco eu era insuperável. Tivemos também diversos testes de sobrevivência. Treinamos montaria e tudo o mais.
- O exército do nosso reino parece mesmo ser muito bom, nunca tive muito contato com eles.
- Claro, nunca foi necessário aqui.
Sua mãe se levantou e foi até o fogão preparar um chá. Enquanto eles conversavam mais.
- E o que são aqueles navios aqui no porto? – perguntou Theodor.
- Ah sim, – ela deixou a panela com água no fogo e virou-se para seu filho. – são alguns navios de comércio. Claro, você não sabe. Amanhã será o Grande Festival do Milho, a nossa família e a de Edgard estamos encarregados de realizar uma corrida de obstáculos. Você pode participar se quiser. Terão diversas atividades. Este ano o festival promete ser muito bom. E talvez você possa ganhar a competição de arco. Fiquei sabendo que será realizada por Kimby, e que o prêmio para o vitorioso é um arco muito bem feito.
- Isso é sério? É claro que participarei então.
O chá ficou pronto e ambos se serviram. Theodor perguntou sobre seu avô, sobre fatos que tenham ocorrido na vila durante sua ausência. Ele queria estar informado. Sua mãe trouxe um bolo de frutas secas e torradas para ele comer enquanto conversavam.
- Sente-se comigo esta noite.
- Como quiser meu filho – disse ela alegre.
Theodor então despejou o conteúdo de sua algibeira em cima da mesa. Várias moedas de prata e cobre rolaram por cima dás tábuas. Sua mãe se assustou.
- Espólios de um vilarejo que conquistamos. Era um povo forte, bons escravos – o rosto de sua mãe se fechou numa careta de tristeza e pesar. – Vamos, você sabe que também não gosto disso, mas precisamos do dinheiro.
- Esta prata vem do sangue de outros, não me sinto confortável com isso.
- Eu tampouco, mas sabemos que é necessário – ele separou as moedas em duas pilhas desiguais, guardou a menor de volta em sua algibeira e arrastou a maior na direção de sua mãe. – Vamos, pegue, por mim, compre mais animais e utensílios novos para sua cozinha. Esbanje amanhã no festival.
- Obrigado.
Horas depois, quando todas as perguntas haviam sido respondidas, mãe e filho decidiram ir dormir. Amanhã eles teriam um dia longo e cansativo, portanto deveriam descansar. Theodor pegou sua mochila, que tinha deixado na porta e cada um foi para seu quarto. Ele ficou feliz de saber que as coisas ainda estavam todas no mesmo lugar. Seu arco e sua aljava presos em um prego na parede, ainda com cinco flechas. Ele arrumou suas roupas no seu pequeno armário de madeira. Ficou sentado ainda algum tempo na cama de palha sob a janela. Mal podia acreditar que estava em casa outra vez. Depois de dois anos inteiros... em casa... outra vez...dormindo.

11 de agosto de 2013

Livro Publicado (Infanto-Juvenil) - Os cavaleiros de Porten Quauss

Excerto do Livro

Prelúdio

Da investidura cavalheiresca

Faltou caridade, lealdade, justiça e verdade no mundo; começou inimizade, deslealdade, injúria, falsidade; e por isso surgiu erro e turvamento no povo de Deus, que foi criado para que Ele fosse amado, conhecido, honrado, servido e temido pelo homem.

 Para manter a ordem, de cada povo foram convocados mil homens, a estes homens foram dirigidas provas para testar-lhes as habilidades corporais, mentais e eclesiásticas. Sua vontade e sua força foram ratificadas e destes foi eleito apenas um em cada feudo; o mais amável, mais sábio, mais leal, mais forte, e com a mais nobre coragem, com mais ensinamentos e de bons modos que todos os outros.

 Cavaleiros! É como passaram a ser chamados, cavalgavam em belos cavalos, envergando belíssimas armaduras, carregando a honra de seu senhor por onde fosse, espalhando a paz e a ordem pelo reino dos homens.

 Eles seguiam um código extenso e detalhado sobre como deveria ser sua conduta, obedeciam de olhos fechados as ordens de seus senhores, eram vistos como exemplos pelos garotos que os viam passar pelas ruas de suas cidades.

 O cavaleiro era uma figura nobre de tremendo poder, ligado à um senhor de terras que lhe dava ordens a serem cumpridas. Montava um cavalo, pois era uma besta magnífica e agüentava o esforço das longas andanças sob o peso dos equipamentos do homem que o montava.

 Por vezes estes homens eram acompanhados por aprendizes, podiam ser pajens quando ainda muito novos – por volta dos seus sete anos –, ou escudeiros, como eram chamados mais tarde. Eles tinham a função de cuidar dos cavalos e do cavaleiro, carregar suas armas, afiá-las, mantê-los alimentados e saudáveis, lutar ao lado do cavaleiro quando necessário, ou ajudá-lo a fugir se as circunstâncias assim demandassem.
 
  ~*~*~*~

 - Contudo, nosso conto não se trata destes tais cavaleiros...


Ato 1
Da fraqueza, pobreza, e da esperteza

Caminhando pelos campos dourados de trigo, passando pela estrada que cortava a enorme plantação, Henrich Höfell um cavaleiro alemão, avistou, ao longe, uma capa esvoaçando e pôde ouvir o trotar veloz de um leve cavalo, preparado para percorrer grandes distâncias em pouco tempo.

 Henrich posicionou-se, segurando o punho de sua espada, que balançava junto à sua coxa enquanto ele acelerava o passo na direção do homem que se aproximava rapidamente à galope. Ele agora podia notar também um estandarte que o estranho trazia consigo.

 Quando chegaram suficientemente perto um do outro o homem parou puxando os freios de seu cavalo malhado enquanto Henrich desembainhava a espada e perguntava:

 - Quem és tu que se aproxima de minha cidade, trajando armaduras e trazendo armas?

 Ao que o homem respondeu:

 - Saia da frente plebeu, pois tenho uma mensagem importante para entregar ao seu senhor. E abaixe esta espada caso não queira se encrencar – ele tinha um sotaque estranho, arrastava os esses e dava uma entonação diferente às palavras.

 - A quem ousas chamar de plebeu? – Perguntou Henrich irado, balançando a espada ameaçadoramente. – Sou Henrich Höfell, cavaleiro de Riosmil, à serviço de meu Senhor.

 - Cavaleiro? – Perguntou o homem descrente. – Onde está então sua armadura, o resto de suas armas, seu cavalo e sua gloriosa imponência cavalheiresca?

 De fato Henrich não era bem um dos mais abastados, mais fortes ou mais sábios cavaleiros, mas ainda assim era um e honraria seu título.

 - Sim! Sou o cavaleiro Henrich Höfell, e digo para que entregues esta tal mensagem à mim, e eu me certificarei de encaminhá-la para meu Senhor.

 ~*~*~*~

 Mesmo com a face já rubra de vinho, Afonso de Magalhães, nobre português, continuava a virar caneco atrás de caneco goela abaixo, enquanto fanfarronava na taverna com companheiros que acabara de conhecer, um grupo de artesãos que se encontraram aí ao entardecer para prosear e gastar as moedas que tinham conseguido naquele dia de trabalho.

 Ele cantava alegre com o restante dos homens que faziam a taverna vibrar alegremente, ao som de um alaúde e uma flauta que dois jovens tocavam preciosamente. Mulheres andavam de um lado para o outro, vestidas com tecidos finos de cores vibrantes, sempre muito carismáticas e bem humoradas, como todos no lugar.

 Durante um entra e sai da taverna, um homem trajando um peitoral de metal, com uma espada curta embainhada presa em sua cinta chama a atenção dos homens que lá estavam, enquanto alguns, sem mais nem menos, pulam pela janela recolhendo rapidamente seus dados e sacos de moedas, deixando para trás seus pratos e copos ainda cheios.

 - Estou à procura de Afonso de Magalhães – anunciou o mensageiro. – disseram-me que poderia encontrá-lo aqui! – Ele gritou para que todos ouvissem, alguns riram de seu sotaque e de seus finos bigodes, já que lá quase todos cultivavam fartas cabeleiras sobre seus corpulentos narizes.

 - Sou eu quem procuras – respondeu Afonso de onde estava, sem se levantar.

 - És tu o Senhor de Fartasuvas?

 - Sim, sou eu mesmo por quê?

- N... nada... – respondeu ele aproximando-se lentamente, sem confiar totalmente. – Sendo assim, trago-lhe uma mensagem.

 ~*~*~*~

 Caleb, filho de Richard, o famosíssimo cavaleiro inglês, tinha acabado de acordar, fora despertado pelos gritos e reclamações de Emrick, um conhecido ladrão das redondezas, que tinha sido finalmente capturado.

 - Afrouxa um pouco esta corda, está apertada demais! Meus ossos estão sendo esmagados!

 - Cale-se, ladrãozinho de meia tigela, não conseguirá nada gritando desse jeito – respondia o cavaleiro enquanto vestia a armadura pra retornar à cidade, depois da perseguição do dia anterior. – Você merece isso, para aprender. É a justiça de Deus meu caro. Seus pecados serão julgados quando voltarmos à Névoademar e veremos se você continuará com suas gracinhas ao, na melhor das hipóteses, ser preso...

 Uma milha de caminhada à frente, quando o sol começava a nascer Caleb avistou barracas na beira da estrada, uma fogueira acesa do lado de fora, no meio delas, e um número igual de cavalos pastando do lado de fora.

 Teria atacado se não tivesse reconhecido o estandarte aliado panejando no centro do acampamento. Mostrava que era um grupo de mensageiros, retornando para a cidade.

 Ao se aproximar pôde ver um homem sentado num toco de madeira perto do fogo, que rapidamente se levantou assustado com sua espada em mãos, cambaleou meio sonolento, mas ao reconhecer o cavaleiro guardou a arma, pedindo desculpas e fez uma enorme reverência. Dava para notar um leve tremor em seus joelhos.

 - Não se preocupe com punições – disse Caleb, em tom bondoso. – Estava defendendo seu grupo, não há razões para temer... fazia seu trabalho, mas diga-me, o que trazem com vocês?

 - Sir Caleb, temos uma mensagem para teu Senhor, veio de Bertrand, da França, vou buscá-la, volto em um segundo – disse, e entrou em uma das barracas, voltando logo em seguida com um rolo de pergaminho na mão, lacrado com cera e o símbolo de Bertrand.

 - Muito obrigado...

 - Mathew, Sir.

 - Muito obrigado Mathew – E jogou uma moeda de prata para o rapaz, que a agarrou no ar, sorrindo radiante. – Continue fazendo seu bom trabalho.

 - E este aí? – Perguntou o mensageiro. – Perdoe minha intromissão...

 - Não há problema, pode perguntar... – Ele disse e puxou a corda que prendia Emrick, pelo pescoço, ao cavalo. – Este é Emrick, um ladrãozinho de meia tigela... Pode contar aos seus amigos que ele foi capturado, e que mais, tão logo, também serão!

 ~*~*~*~

 Bertrand, 23 de junho de 1255

               Saudações Senhores,

 Venho a vós informar sobre um festival que haverá em minhas terras, no dia 30 de agosto, dia do meu aniversário. Uma competição cujo campeão poderá desposar minha bela filha Eveline e passará a fazer parte de nossa família assumindo também a posse de algumas de minhas terras, pois já não tenho tanto poder para dominá-las todas, e também, porque desejo que minha filha possa desfrutar de um bom lar para seus filhos, meus netos.

 Convoco os nobres dispostos a competir por este belíssimo prêmio, e chamo louco aquele que não vier. Será aceito que mandem seus cavaleiros para competirem em seu lugar, mas apenas um nobre será aceito como noivo de minha querida, amada, bela, carinhosa, carismática, enigmática, engenhosa, e de tantas outras qualidades, filha.

 A competição testará as habilidades de combate, de agilidade, de resistência física e mental, de astúcia e de conhecimentos práticos e intelectuais dos participantes. E o vencedor será, então, aquele mais apto a ter a chance de casar-se com minha filha, e visto que um cavaleiro pode representar seu senhor e que um senhor tem por escolha divina mais capacidade de mandar e desmandar nas terras, afinal, se, tendo o título de nobre o nobre tem, por decisão de Deus, que proteger e governar o povo para o caminho correto do bem, é justo que caso o cavaleiro de algum senhor vença o campeonato o prêmio seja transferido, assim, para o nobre responsável, dados os motivos explicitados acima.
 
Por isso desejo que todos venham, para que sejam postos à prova o real nobre mais dotado de casar-se com minha filha!
 
                                                                                    Aguardo a presença de todos, Rei Bertrand.

 ~*~*~*~

- Todos nossos três heróis leram as cartas, e todas diziam exatamente as mesmas coisas. E todos iriam, mesmo que por diferentes motivos, para Bertrand, nas terras da França, participar do torneio, e é lá que a verdadeira aventura toma rumo, mas aguardem por isso, pois ainda temos muito para saber, antes de irmos para a frança.

 ~*~*~*~

 Quando Henrich terminou de ler a carta o mensageiro já tinha se despedido.

 Feito seu trabalho já não tinha mais que se preocupar com o quão duvidoso era o suposto cavaleiro, mesmo que ele trouxesse com ele apenas uma cota de malha, uma espada longa e um escudo, enquanto comumente estes andassem com armaduras de placas, completas, elmos reluzentes, além de espadas, lanças, maças, machados... e o principal: UM CAVALO!!

 O homem se dizia ser um cavaleiro e não tinha sequer um cavalo! Como isso era possível?

 O mensageiro a princípio ficou receoso de que a mensagem não chegasse ao seu destino, mas acabou sendo convencido pela oratória motivadora e honrada do jovem alemão.

 Henrich era um jovem de cerca de dezenove anos. Eleito cavaleiro de Riosmil, tinha sim, sido eleito por ser o mais bravo e honrado, e forte, e sábio e cumpria todos os pré-requisitos de um cavaleiro. O mais tudo... afinal... era o único em Riosmil disposto a lutar e dar a vida por seu senhor. Portanto ele foi O Um escolhido, a única diferença, era que só havia ele como opção.

 Eram terras pacíficas como aquelas, especialmente Riosmil, cidade costeira banhada por diversos rios, tantos, à ponto de deixar a terra úmida por todo o ano, tornando Riosmil mais para Grandepântanofundoefedido. Não existem nem inimigos dispostos a atacar um feudo como este, até porque as lendas das criaturas que habitam os charcos são de pôr medo nas crianças e nos velhos, que contam para as crianças à gerações e gerações.

 Henrich por sua vez amava sua terra. E lutava por ela com todas as suas forças, na verdade ele nunca tinha lutado por ela... mas lutaria se fosse necessário. Ao menos era o que ele dizia. Mas no fundo no fundo sabia que era verdade, sempre foi um homem muito honrado e cumpridor de sua palavra, e, se prometeu fidelidade à Riosmil, fiel a ela ele seria.

 E foi isso que disse ao seu senhor antes de ser mandado depressa para a frança, para lutar em nome dele. Arrumaram para ele um bom cavalo, talvez o melhor da cidade, mas ainda assim não era grandes coisas, tal como as armas e a armadura preparadas de última hora pelo ferreiro Riosmilense.

 Uma semana depois então, ele partiu!

 ~*~*~*~

 - Um campeonato então... – Resmungou Afonso. – Eu irei... Obrigado pela carta meu jovem. Venha, tome um copo de vinho conosco.

 Com aquela idade para ele todos eram jovens. A barba por fazer, pontilhada de fios grisalhos, os cabelos desgrenhados, a pança caindo sobre as coxas, a braguilha já aberta para não ter trabalho... marcas que demonstravam o tamanho desleixe com que vivia.

 Afonso era mesmo o senhor de Fartasuvas, o problema é que Fartasuvas já não mais existia... Agora aquelas terras chamavam-se Vinhedos de Gaugueir, cujo dono atual tinha expulsado, com a ajuda de uns cem guerreiros apenas, Afonso e todo o povo que também não era muito. Os antigos habitantes tinham sido acolhidos pelo feudo de um primo do irmão do tio-avô de Afonso, um homem também já bem velho, mas bem mais saudável, inteligente... dentre outras diversas qualidades que não vêm ao caso serem citadas agora. Vamos nos focar nos nossos heróis.

 Outro fato que vocês devem saber é que há um motivo para Afonso ter se tornado um tão mal senhor... Há muito tempo, quando ele ainda era jovem, sua mulher faleceu, e ele não arranjou nenhuma outra família disposta a casar alguém com ele. E que Afonso não tinha família, nem amigos nem nada de importante para ele.

 Por isso sentava todo dia na taverna para beber, bancado pelo seu título de nobre. Nobre falido era o que era. Mas naquela época um nobre mesmo que sem dinheiro ainda tinha muitas regalias.

 Agora, com a mensagem contida naquela carta Afonso tinha um novo objetivo. Partiria para a França, com a força de espírito, sem nada a perder. Afinal a única coisa que ainda não tinha perdido era a própria vida, e num campeonato as pessoas costumavam terminar continuando com as suas. Eram provas difíceis, mas nunca chegaram a ser mortais.

 Afonso partiu no dia seguinte com os homens daquele feudo que também participariam do torneio.

~*~*~*~

 Caleb e Emrick tomaram a estrada de volta para Névoademar, um feudo na costa da Inglaterra. Passaram por alguns campos de pastagem de ovelhas, onde seus donos recolhiam sua lã para a produção de tecidos nas cidades, em seguida tinham de atravessar o Bosque Escuro, que já não tinha mais motivos para ser chamado assim, agora que uma estrada pavimentada o cortava ligando os feudos próximos, mas ainda assim, muitos bandidos passavam por lá.

 Caleb cavalgava à frente enquanto Emrick tentava acompanhar o galope do cavalo. Seguiam assim, em silêncio, até que em dado momento Caleb desmontou seu cavalo para urinar.

 - Faz isso mais pra lá! – Reclamou o ladrão.

 - Quieto! – Ordenou o cavaleiro. Que desafivelava sua calça de malha de ferro.

 Emrick teve apenas dez segundos para alcançar a espada no alforje de Galhofas – o magnífico garanhão branco de Caleb – Cortar as cordas que prendiam suas mãos e correr na direção de seu raptor para acertá-lo em cheio na cabeça e derrubá-lo.

 Quando o cavaleiro acordou estava atado ao tronco da árvore, de frente para a estrada, pelas cordas que antes prendiam Emrick. Enquanto este escrevia algo com um punhal na madeira sobre sua cabeça.

 - ME SOLTE DAQUI! – Exigiu o cavaleiro.

 - É melhor não – disse Emrick – você deve estar furioso!

 - É CLARO QUE ESTOU FURIOSO– respondeu o cavaleiro irado. – QUANDO ME SOLTAR EU MESMO CORTAREI SUA CABEÇA!

 - Ouso dizer que é um péssimo negociante, Sir Caleb – zombou. – Tente não falar comigo agora, pois já não escrevo muito bem, se o senhor me atrapalhar seus dizeres ficarão todos com uma péssima caligrafia.

 - O que quer dizer? – Exigiu Caleb com raiva e curiosidade.

 - Espere um segundo – disse Emrick. – Lerei para o senhor quando acabar, e então o senhor me dirá sua ilustríssima opinião.

 - Claro... – disse a princípio, movido pela incrível lábia de Emrick, os papéis tão repentinamente tinham se invertido que a raiva que sentia se misturava com descrença e distração – Quer dizer, pare já com isso! Se me soltar prometo que te matarei rapidamente, sem dor!

 - Claro, já que é assim... – caçoou o ladino, concentrado no toque final de seus dizeres – Guarde suas ofertas honrosas para aqueles que de honra não carecem... Ah, aqui! Está pronto. Ouça:

 “Este é Caleb, filho de Richard, um cavaleirinho de meia tigela. Contem que ele foi pego de calças curtas, literalmente, por Emrick Verdetora, o maior ladrão de toda a Inglaterra!”

 - Então, o que achou? – Ele perguntou à Caleb.

 - Seu ladrãozinho imundo, vou acabar com a sua raça!

 - Vou considerar isso como um “está ótimo, vejo que até usou algumas de minhas palavras, agradeço muito a homenagem”. Agora, se me dá licença...

 - Ei, tire as mãos das minhas coisas!

 Emrick se abaixava e retirava com “cuidado” o elmo da cabeça de Caleb... As suas botas metálicas, suas braçadeiras e suas grevas. Seu peitoral estava com o cavalo...

 Alguns minutos depois – pois para vestir toda aquela armadura levava-se algum tempo – Emrick já estava armado como um verdadeiro cavaleiro, ou melhor: como Caleb. Montou Galhofas e olhou mais uma vez para seu patrocinador:

 - Adeus Caleb, obrigado por tudo.

 - Não me deixe aqui! Vai anoitecer e os animais me comerão vivo! Que é o que eu faria com você seu ladrãozinho bastardo!

 - Acho que está mais do que provado que não sou um ladrãozinho de meia tigela, como diz, e sim: O Maior Ladrão de toda a Inglaterra! Como os dizeres acima da sua cabeça dizem. Além do mais, seu garotinho paspalhão, digo, paspagem... opa, pagem... eu quis dizer pagem. Ele deve chegar a qualquer momento. Não devias tê-lo deixado para trás, para vir atrás de mim.

 Emrick então, dali seguiu para uma conhecida cidade portuária, não podia aparecer em Névoademar com o equipamento de Caleb. E tampouco podia continuar muito tempo na Inglaterra. Lembrou-se então do campeonato descrito na carta e pensou:

 - Porquê não?

 ~*~*~*~

 - Foi assim que todos nossos heróis partiram finalmente para a maior aventura de suas vidas. Claro que eles ainda não faziam nem idéia de em que iriam se meter. Mas isso, vamos deixar mais para frente. Não quero estragar a história.

 - Vocês devem estar pensando: Heróis?! Esses homens são um bando de asnos desocupados, todos atrás de uma bela moça para casar e um bom pedaço de terra para cultivar.

 - Apenas esperem e acompanhem o desenrolar da história.