Sugestões, Pedidos e Dúvidas

Bem, espero que todos sintam-se livres para requisitar trabalhos específicos, sugerir procedimentos de postagem, fazer algum pedido ou tirar qualquer dúvida.

Agradeço pelas visualizações, mas agradecerei ainda mais pela participação no trabalho! Sintam-se livres para comentar e participar da construção das obras que serão para todos nós!

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12 de janeiro de 2014

Inspiração - Suzy



Já era a terceira vez que estávamos ensaiando, mas desta vez já não era para valer. Estávamos apenas nos divertindo. Através da câmera, provavelmente com um sorriso no rosto, eu seguia os movimentos lânguidos, já nada acertados de Anna-Luca, girando, desequilibrando-se, dançando, vivendo...

Suzy ainda fumava, um braço dela segurava sua própria cintura, e o outro apoiava-se sobre o primeiro, enquanto levava o cigarro à boca em intervalos curtos. Apoiada no umbral da porta nos observava de lá. A fumaça misturava-se com a poeira que nós revolvemos e que o sol destacava sob seus raios de luz como flocos de cristal flutuantes.

A música que tínhamos gravado estava para repetir no rádio de pilha que tínhamos trazido, e já nem nos importávamos mais em ouvi-la tantas vezes. Anna-Luca puxou-me para dançar, e eu continuei tentando filmar nós dois enquanto ria compulsivamente da merda que estava ficando.

De repente eu senti as mãos de Suzy atrás de mim e seus pequenos seios pressionando minhas costas, enquanto seguíamos, os três, cada um em um ritmo completamente diferente, inclusive do da própria música. Ergui a câmera no alto, e mandei-as olhar, lembro de todos rirmos, talvez só eu tenha rido... Porque me lembro de nessa hora a Suzy falar o que ela queria. E o vapor da boca dela arrepiar a minha nuca. Foi aí que eu percebi que as mãos embaixo da minha camisa eram dela e não da Anna-Luca.

Não me lembro de ter respondido alguma coisa, mas ela foi fechando as janelas de correr de vidro craquelado da antiga lavanderia industrial que usávamos para nos escondermos de quem não queríamos que nos visse. Acho que muitas vezes nos escondíamos de nós mesmos, das bestas que vivem dentro de nós, dos nossos medos, dos nossos inimigos inventados, das nossas depressões... e já faziam bons cinco anos que ninguém ia aí. Ninguém além de nós e nossas personalidades frágeis.

Nós ensaiávamos aí, tocávamos, fumávamos, transávamos, brigávamos... e nos reconciliávamos. Os três, por que não? Eu conheci a Suzy primeiro, e foi ela que me mostrou o lugar, foi onde transamos pela primeira vez, até que, numa outra vez, ela trouxe a Anna-Luca. Elas fizeram o terceiro ano juntas. E, desde então, sempre viemos os três, eu no Sax, a Suzy cantando e Anna-Luca tocava violino, ninguém cumpria bem seu papel, mas não era isso o que importava.

Aqui discutíamos filosofia, política, tentávamos compreender o que é a liberdade dentro desta sociedade cheia de regras na qual vivemos, refletíamos sobre nossos objetivos na vida, sobre o que havia depois da morte... Enfim, estou devaneando de novo... ficou tudo escuro quando, por fim, a Suzy fechou a porta.

Eu e Anna-Luca já estávamos nos beijando, e acho que ela tinha dito que a Suzy não devia estar aqui, ou que ela estava estranha, ou ambos, quando eu a senti aproximando-se novamente. Eu fui andando para trás, rindo, com a câmera na mão, até tropeçar numa peça de ferro que nenhum de nós nunca soube para que servia, mas que era presa no chão e usávamos, também, como banco, eu caí sentado... Alguma delas sentou no meu colo, mas caímos para trás, e elas aproveitaram para tirar a minha calça.

Eu ria muito. Elas também.

Rolamos até parar perto da máquina de lavar, em estilo americano, que usávamos para o clipe, havia uma parte nele em que muita espuma saía dali, e o chão ao redor ainda estava todo molhado e a roupa que Anna-Luca punha lá dentro durante o vídeo também estava lá. Eram umas roupas que tínhamos alugado. E que ninguém se importou muito naquela hora, mesmo que ainda não estivessem pagas.

O som do isqueiro de Suzy arranhou o dos gemidos, meus e de Anna-Luca, enquanto ela acendia mais um baseado, e o cheiro típico inundava a ampla, mas não espaçosa, sala: cheia de antigas máquinas amontoadas e canos de ferro empoeirados. A droga foi passando de boca em boca como era nosso costume fazer com tudo que compartilhávamos. Sempre acreditamos que o mundo devia compartilhar mais as coisas, o dinheiro, a felicidade, a arte, o amor... Tudo!

Às vezes eu só ouvia elas duas enquanto me divertia sozinho; às vezes elas revezavam; às vezes não sabíamos bem o que fazíamos; mas dessa vez eu apenas via Suzy sentada lá onde eu tinha caído. Via por conta da ponta acesa do cigarro flutuando na semi-escuridão, mas logo eu não via mais nada, apenas ouvia, sentia, gostava. Anna-Luca também gostou.

Não sei quanto tempo se passou, nem acho que um dia eu vá saber... Mas eu sentia Anna-Luca tremendo, nervosa sobre mim, ouvia-a arranhando o botão de abrir da máquina de lavar, desesperada, arfante, seu rímel estava borrado, e parecia que ela queria chorar mais não conseguia.

Suzy estava de pernas cruzadas exatamente no mesmo lugar, com um dos pés balançando rapidamente, com seu short jeans curto, e seu top branco completamente imundo, passando o indicador pela boca, com este braço apoiado sobre o outro na mesma postura que ela sempre adota quando está nervosa, braço cruzado e tudo o mais, mas sem cigarros desta vez. Estava aflita, seu queixo tremia e sua respiração eram golfos agonizantes de ar, como os de uma criança sufocando com o choro.

Quando eu me mexi ela me encarou com uma expressão transtornada e assustadora. Subitamente eu me dei conta de que eu não conseguia respirar. Faltava ar ali, meus pulmões se contraíam e relaxavam e não vinha nada. Minha boca abriu-se desesperada por ar, me levantei, e corri até a porta!

-Está fechada - ouvi Suzy dizer com uma voz enrouquecida.

Forcei a tranca, e nada. Abaixei-me, encostei minha bochecha no chão gelado e abri a boca contra a iluminada fresta que dava para a rua. Sorvi longos goles de ar e poeira. Meu cérebro parecia funcionar pior do que nunca, eu não entendia o que eu estava fazendo ali, não entendia o que eu queria, o que eu ouvia, o que eu sentia, ou o que eu pensava, ou deveria pensar. Apenas ouvia Suzy tentando chorar e Anna-Luca lutando desesperada contra o botão da máquina de lavar.

Foi quando tudo ficou claro, e meu pulmão encheu-se de oxigênio. Não conseguia pensar pela falta dele. Andei até Anna-Luca, catando minha roupa pelo caminho e vestindo-a. A câmera estava caída, descarregada, onde a tinha deixado. Estava difícil respirar ali... Por alguma razão me abaixei ao lado dela e ajudei-a a arrombar a máquina de lavar, notei que as pontas dos seus dedos sangravam por debaixo das unhas e manchavam o metal da lataria da máquina.

Ela apenas contentou-se em sentar sobre as suas pernas dobradas para trás, com as mãos caídas entre os joelhos, os cabelos desgrenhados e a maquiagem borrada, olhando para o buraco escuro dentro da máquina de lavar quando eu o puxei com força, quebrando a tampa dela e libertando o odor terrivelmente  azedo de sabão em pó de má qualidade misturado à morte e putrefação.

Eu meti a mão dentro dela, tentando alcançar alguma das peças de roupa alugadas e apenas alcancei uma gosma mal cheirosa, e alguns rebites de metal que faziam parte do que um dia fora um colete... O olhar perdido de Anna-Luca e a respiração arranhada de Suzy estavam me deixando louco.

- Vamos sair daqui! - Disse a elas, ao que elas me responderam com meros olhares. Eu passei a mão por debaixo da axila de Anna-Luca tentando erguê-la, mas ela apenas deixou-se escorregar pelos meus dedos... Caminhei até um banquinho de metal que deixaram ali no passado e dei com ele contra a vidraça da porta estourando-a em dezenas de cacos que voaram para fora dali, abrindo passagem para o ar e para a luz que eu recebi (quase) contente.

Quando olhei para trás, Suzy trazia Anna-Luca, ajudando-a a caminhar. Ela estava mole e sua percepção parecia ausente da realidade.

- Vamos sair por aqui, já que a porta não abre... - falei. - Parece emperrada.

- Vamos ficar aqui... - sussurrou Anna-Luca, quase que inaudível. - Vamos esperar alguém vir... - completou...

- Ninguém vai vir até aqui, querida.- Contestou Suzy, ironicamente.

- Mas eu não gosto de cortes com vidro - declarou Anna-Luca, com um tom de súplica em sua voz frágil, erguendo os olhos para mim.

- Deixa eu só fazer isso aqui... - disse eu, tirando minha camisa, enrolando na mão, e quebrando o restante das pontas de vidro que ainda havia na porta. - Não dá pra limpar mais que isso, mas da pra passar com cuidado. Vamos...

Eu peguei na mão de Anna-Luca e ela pôs seu peso sobre mim, buscando por segurança e coragem. Suzy me empurrou, no mesmo instante, e passou uma de suas pernas pela porta, resmungando e estalando os dentes quando sua coxa raspou no serrilhado de vidro na base da janelinha da porta. Sangue quente escorreu para dentro, e Anna-Luca desviou o olhar.

Desenrolei a minha camisa da mão e a pus sobre a parte sangrenta, para tentar aliviar a passagem dela. Ajudei-a. E logo atrás fui eu. Suzy já estava na varanda da antiga lavanderia. Terra e pedras cobriam o antigo chão de ardósia, o antigo trilho de trem que corria beirando todo o complexo da fábrica estava coberto também, e o sol quente e brilhante fazia o horizonte tremular, desfigurando, ao longe, as silhuetas de alguns cachorros que brigavam por alguma coisa.

- Não devia haver um morro ali? - Perguntou Anna-Luca displicentemente, e eu olhei, achando estranho, pois devia mesmo, e agora apenas planície e céu encontravam-se na imensidão.

- Suzy, espere por nós! - Falei, quando a vi se afastando. Um cachorro grande vinha na direção dela, e não sei que raça era, mas acredito que fosse um pastor alemão, ele parecia magro e faminto. Ele vinha farejando o chão sem parecer notá-la. Ela virou o rosto para mim quando eu a chamei, mas ela apenas me encarou, com o mesmo olhar perturbado que me mandou lá dentro, e olhou para o cachorro de novo, ao que ele estancou, e provou o ar.

Mostrou os dentes para ela e rosnou. Os pelos de suas costas se eriçaram, e o meu coração foi feito em mil pedaços quando Anna-Luca enfiou as unhas no meu braço, porque naquele momento um gato, surgido do nada, passou por debaixo de nossas pernas.

O cão latiu alto, e eu vi os outros cães, no horizonte, latindo em resposta. Mas este aqui estava encarando os olhos de Suzy, e ela os dele, e ela aproximou as costas da mão do animal, que recuou mais um passo, abaixando-se e rosnando, adotando, obviamente, uma posição de ataque. O gato saltou para o meio deles dois, roubando a atenção do cachorro, o felino me encarou como Suzy tinha feito, e afastou-se com o cão perseguindo-o e ignorando a gente.

Contudo, os demais cães começavam a correr nesta direção, e eram dez ou mais. Meu coração estava acelerado. Meu braço agora sangrando e doendo. Meu suor escorria frio da minha cabeça. E uma sensação completamente desagradável crescia dentro de mim, como um milhão de pontas de vidro geladas que cortassem meu peito e meu ventre, indo até as pontas dos meus dedos em espasmos de nervosismo.

- Vamos voltar lá para dentro e traçar um plano... - estava dizendo, e notei que minha voz estava embargada.

- Um plano? - Interrompeu Suzy, do meio do que deveria ser a rua.

- Esperar, matar os cachorros, eu sei lá... - Supus. - Legítima defesa... Podemos atestar estar sob efeito de entorpecentes... Efeitos de drogas... - Eu não fazia sentido.

- É, drogas! - Sugeriu Suzy, não sei dizer se foi irônico. - Estamos drogados ainda! - Ela exclamou, sorrindo de forma esquisita.

Anna-Luca me olhava, e olhava para os cachorros, e viu meu braço sangrando, e as suas unhas voltando a penetrar minha pele. Ajudei-a a entrar novamente, e a Suzy aproximou-se para entrar também.

- O cachorro te estranhou por que você está morta... - eu disse para Suzy, enquanto ela passava a perna ferida pela janela, sem saber por que.

- O que? - Ela parou, no meio do caminho e olhou para mim, incrédula. - Eu? Morta? - Adicionou com um sorriso debochado. E entrou.

Quando eu ia entrar ela se pôs na frente da janela, com Anna-Luca ao seu lado, ainda impotente e sem entender o que dizíamos.

- O gato que me disse. - Afirmei.

Saiu da minha boca novamente, parecendo coerente.

- Eu não estou nada morta! - Ela respondeu decididamente, sentindo-se injustiçada. - E, se eu estou, por que é que vocês também não estão? - Completou, olhando para mim e para Anna-Luca, como quem denotava saber sobre algum crime terrível que tentássemos esconder.

Eu não sabia o que responder, e os cachorros se aproximavam.

- Você sempre prefere ela! - Veio de repente. Suzy me encarava com raiva. - Desde que eu a apresentei a você, você só quis saber dela!...

- Me deixe entrar, os cachorros vão me matar!

- Ela nem devia estar aqui! - Ela continuou. Aumentando o tom de voz. - Nem devia estar no nosso... ou melhor... NO MEU CLIPE!

- Pare de gritar! - Pediu Anna-Luca, aflita.

- Do que você está falando? - Eu indaguei, completamente desnorteado.

- ESSE LUGAR AGORA É MEU! SÓ MEU! COMO ERA ANTES!

- Me deixe entrar! - Eu gritei de volta, agora verdadeiramente desesperado. O olhar dela estava perturbado, estava maligno. Sua maquiagem, borrada também, deixava-a com o aspecto de uma psicopata. E ela sorria, olhando para mim.

Anna-Luca a empurrou, chorosa, gritando:

- Deixe-o entrar!

Eu saltei lá para dentro quando Suzy caiu, desprevenida. Arranhei minhas costas na parte de cima da janela, minhas mãos nas laterais, e cai sobre Anna-Luca, com um cachorro enorme metendo a cabeça para dentro do lugar, preenchendo-o com seus latidos famélicos.

- É para matar os cachorros, então? - Perguntou Suzy, se levantando, alcançando um cano longo de metal. Tentando sobrepor sua voz aos latidos histéricos do animal. Um dogue alemão albino.

Anna-Luca me olhou assustada enquanto eu me levantava e ajudava-a a levantar-se também. Encostei-me na parede, evitando aproximar-me do animal e de Suzy, e caminhei em direção ao banco que tinha usado para quebrar o vidro. Mas antes de alcançá-lo Suzy bradou e avançou na minha direção, descrevendo um arco no ar com o cano que começou sobre seu ombro e veio descendo na direção de meu rosto.

- VAMOS COMEÇAR POR VOCÊ ENTÃO! SEU DESGRAÇADO!

Eu tentei me defender, mas foi estúpido, eu senti meu braço sendo fraturado sobre o golpe insano de Suzy, ao mesmo tempo que o som agudo do grito de Anna-Luca ecoou por todo o metal que havia no lugar: reverberando.

- Suzy! - Uma calma, vinda não sei de onde, se apoderou de mim. - Calma! O que você está fazendo?! Você quebrou meu braço! - Tentei racionalizar.

Ela interrompeu seu próximo passo, aflita e insegura, enquanto eu buscava aproximar-me mais do banco.

- Por que você só não me ama? - Ela questionou, não sei se verdadeiramente para mim, talvez tenha sido mais para ela.

- Te amar...?

- Seria tão mais fácil... - ela resmungou. - Eu te faria feliz...

Eu a encarei, absorto e chocado.

- Suzy, você tá chapada... - foi Anna-Luca quem falou. - Larga isso.

- NÃOFALACOMIGOSUAVAGABUNDA! - Ela explodiu, retornando ao estado de frenesi.

Ela olhou para mim.

- Sempre se defendendo... - Ela parecia decidir-se. - Seu babaca! - O cachorro latia. - Eu sempre fiz tudo para você! - Ela brandiu novamente o cano.

Eu alcancei o banco e avancei contra ela quando ela ameaçou me atacar de novo. Mas meu braço quebrado não respondeu ao comando, e o cano de ferro afundou na minha cabeça... Mas eu não morri instantaneamente...

Pelo meu outro olho eu vi Anna-Luca tentar pará-la, gritando em desespero, apenas para tomar uma traulitada na lateral do crânio, que se esfacelou, sob os gritos desesperados de Suzy:

-VA-GA-BUN-DA! - O cano repicava como um sino a cada golpe, pontuado por uma sílaba, preenchendo todo o ar com sua canção.

Me entreguei quando a vi sobre mim e senti sua mão no botão da minha calça...

Preferi morrer.

Mas eu ouvi. Ouvi quando ela disse:

Estou morta também. E você não vai mais fugir de mim.

4 de janeiro de 2014

Estudo - Descrição da Ilustração de Paul Bonner

Eldsjäl - O Vale de Fogo

(Não tenho certeza do título da imagem, e a tradução usada aqui não é verídica)


Estudo literário por Estevão Balado para a Ilustração de Paul Bonner


                Era outono.

                O vento frio começava a minguar a névoa que cobria o solo pedregoso da floresta alta e densa que atravessavam. A respiração pesada dos anões contrastava com o leve restolhar das folhas que voavam tingindo a paisagem com degradês alaranjados. O céu limpo sobre suas cabeças era quase belo o bastante para fazê-los esquecer de tudo o que aconteceu na noite anterior, mas os olhos fundos e as expressões sombrias mantinham-se gravadas em seus rostos hirsutos.

                - Tem certeza que não devíamos ter esperado o Humano? - A voz de um deles arranhou o silêncio, grave e súbita. O outro parou e virou-se para encará-lo com um olhar de censura. Olhou para o alto, num sobressalto, semicerrando os olhos, quando um par de corvos voou de um galho em direção ao firmamento e o disco brilhante ofuscou sua vista.

                Instintivamente ele levou as mãos à faca de caça que carregava no cinto, em suas costas, e olhou ao redor. Fez um gesto para que o outro continuasse andando e sussurrou de modo imperativo:

                - Eu disse para que não falasse nada até chegarmos ao rio! Wotan sabe o que faz, ele já deve estar lá. E eu disse para você que aqui... - Um ruído alto de arrastar ecoou pelo vale, vindo do topo das altas montanhas que lançavam suas sombras densas sobre a estria que atravessavam. Um arrepio percorreu a espinha dos anões, enquanto eles observavam a silhueta de uma gigantesca fera sobrevoar os penhascos à uma enorme distância do chão.

                Roddare puxou Bjønt para baixo das raízes de uma árvore, seu rosto denotava seu temor e seu coração acelerado a ansiedade. Ele sabia que um anão era uma presa fácil para dragões. Por isso nestas montanhas abrigavam-se dentro delas, em extensas cavernas e túneis, não ao ar livre, como os humanos. Até porque não possuem os mesmos poderes e bênçãos que eles.

                Em Eldsjäl os dragões foram os senhores por muito tempo, e todos sabem disso, até um humano chamado Ymir, há muito tempo, derrotar Dragon, o mais antigo de sua raça, e aprisionar seu espírito, com a ajuda dos sacerdotes anões, nas montanhas do vale. E, a partir de então, humanos e seus senhores,  a quem chamam Hermaður, aqueles que herdam o poder de Ymir, vem mantendo a cobiça e as garras dos dragões distantes de suas terras e das dos anões.

                Entretanto, agora que Gudyr, o último Hermaður, havia falecido, estavam todos vulneráveis novamente à ferocidade e às inconstâncias dos dragões. Portanto os anões vêm ajudando os humanos a encontrar o próximo herdeiro entre si, pois apenas assim haveria a esperança de trazer proteção novamente às sociedades que habitavam Eldsjäl.

                - Vamos continuar andando, e fique em silêncio - balbuciou Roddare, sem emitir som. Bjønt, completamente imóvel, apertava com tanta força o cabo de seu machado, que suas juntas empalideceram e suas veias saltavam pulsantes como vermes sob sua pele grossa.

                Eles se entreolharam, um buscando coragem na força do outro, acenaram resolutamente com as cabeças, e seguiram seu caminho. Não havia trilha, mas Roddare conhecia o caminho muito bem. Ele, assim como todos os outros ruivos de sua raça, possuía uma sabedoria sobrenatural, e, embora a floresta o reverenciasse, a presença dos dragões era ainda mais formidável e ameaçadora, por isso ali ele sentia-se exposto.

                Não tardou muito, eles chegaram à uma passagem estreita em meio a algumas rochas e dali conseguiam ver o quão alto ainda estavam. Viam o topo das árvores lá em baixo, descendendo irregularmente sobre as rochas até chegarem ao rio sobre o qual se curvavam. Além dele se avolumava outro paredão de rochas nuas. Juntas, as duas margens se elevavam e  coordenavam a passagem do rio entre si, formando sinuosas curvas que se perdiam à distância.

                Tudo parecia calmo. Terrivelmente calmo.

                - Vá na frente! - Murmurou o anão ruivo para seu companheiro, não mais alto que uma respiração. Bjønt, então, escalou até lá em baixo, segurando-se em algumas pedras para equilibrar-se. Roddare foi logo atrás, após certificar-se de que não havia sinal do dragão aqui. A trança ruiva, que cultivava solitária em sua cabeça raspada, agitou-se, conforme caía de um salto preciso e silencioso, ao mesmo tempo que Bjønt punha os pés no chão pesadamente.

~*~*~*~

                Wotan abriu os olhos quando ouviu os passos vindos da floresta. A espada já repousava em seus joelhos e, portanto, apenas fechou as mãos ao redor de seu punho, enquanto seu coração voltava a pulsar na velocidade normal. Seus olhos profundamente azuis miraram as duas figuras atarracadas saírem da floresta com gotas pesadas de suor constelando a testa de Roddare, e se perdendo na farta barba de Bjønt.

                Aliviado com a chegada dos anões, Wotan levantou-se. Neste momento os anões se curvaram, assim como as árvores faziam ali sobre o rio. E, cobertos pelas sombras da floresta, os três se cumprimentaram. Wotan pediu para que eles se levantassem, constrangido, e agradeceu por terem vindo. Sua voz soava austera e poderosa, mas, sua aparência, consternada.

                - Não agradeça, Wotan - disse Roddare. - nós conhecemos nosso dever e viemos até aqui para cumpri-lo. Está pronto para partir?

                - Espero que sim... - Respondeu, virando-se para observar o rio. - Estive conversando com meus ancestrais, e eles acreditam mais em mim do que eu mesmo.

                - Sabemos que aqueles que descendem de Ymir possuem capacidades especiais necessárias para apoderar-se do antigo espírito de Dragon, e as características que possui fazem de você um ser único entre os da sua raça. - O anão ruivo apontou para o outro rispidamente em direção ao barco, como quem perguntasse "o que está fazendo aí ainda?".

                - Mas eu posso não ter força o bastante para controlar o espírito de Dragon dentro de mim - respondeu ele, virando-se para o anão ruivo novamente, enquanto o loiro punha seu machado na argola em seu cinto e ia em direção ao bote que repousava ali, virado de cabeça para baixo, à margem do rio, escondido sob uma rocha saliente.

                - Minha raça, e meus irmãos estamos aqui para ajudar-te nessa tortuosa empreitada. Você se tornará mais forte, uma vez que Dragon esteja em você. Você pode achar que seu corpo é fraco, e talvez ele até seja, mas um espírito como o seu há de ter a força necessária para superar o do antigo dragão, e então seu corpo se tornará tão forte quanto o dele um dia foi, somado à força de todos os Hermaður antecessores a ti. Vejo que trouxe a espada, onde está o restante do equipamento?

                Ele apontou para uma pedra próxima de onde estava sentado antes, e lá estavam a antiga armadura, a bainha da espada e o escudo de Gudyr.

                - Vista-as - disse o anão, mais em tom de recomendação do que de pedido. - Grænteldur está sobrevoando a região... deve estar caçando. Além do mais, trols e ogros devem estar rondando pela floresta também.

                - Imagina o quão tolo seria, se o futuro herói de nossa região fosse morto antes de completar seu destino por um estúpido ogro? - Caçoou o anão barbudo.

                Wotan concordou com a cabeça e aparamentou-se enquanto Bjønt empurrava o bote rio adentro. Vestiu a cota de malha sobre o manto acolchoado que trajava, amarrou o cinto da espada por cima dela, em sua cintura, pegou o escudo, e respirou fundo. Roddare já estava dentro do bote segurando os remos, enquanto Bjønt esperava por ele.

                - Vamos garoto! - Disse.

                Ao entrar, sentiu a embarcação balançar. Sentou-se, e observou Bjønt terminar de empurrá-la para dentro do rio, para, só então, quando já tinha a água pelas canelas, saltar para dentro do bote e Roddare estar livre para começar a remar. E gradualmente se afastaram da margem, seguindo a correnteza.

                - Conecte-se ao mundo espiritual... - disse Roddare. - Quando chegarmos lá você será recebido por Dragon, e precisará estar bem solidamente ligado ao seu espírito para que, contra o espírito dele, tudo possa funcionar corretamente.

                Os altos paredões rochosos elevavam-se de ambos os lados, comprimindo-os entre eles. O anão remava calmamente observando o rosto de Wotan que havia fechado os olhos e começado a meditar novamente. Bjønt estava atrás dele, e segurava seu machado olhando para o alto, perscrutando a imensidão.

                - Você acha mesmo que esse é o certo? - Perguntou Bjønt em dado momento, quando já estava seguro de que Wotan não podia ouvi-lo.

                - Há de ser - respondeu Roddare.

                - Ele me parece ainda mais idiota do que os outros que trouxemos antes dele.

                - Não é a força bruta dele que fará diferença, tampouco a agudeza intelectual. Nunca foi. É o espírito dele que deve ser forte.

                - Os ruivos e essas histórias dos espíritos... Mas, se ele sequer acredita que ele pode, como quer que eu acredite, então?

                - Não era você o anão que estava comigo ontem? - Interrompeu-o Roddare, ironicamente - Acaso já tinha visto ser humano mais arrogante do que o que trouxemos ontem aqui? E ele foi destruído pelo poder de Dragon. Se a questão fosse acreditar em si mesmo, certamente já teríamos um novo Hermaður. A questão é conhecer-se. Conhecer suas limitações, suas capacidades, compreender-se...

                - Ora, mas por que funcionaria com este garoto qualquer, se não funcionou com os próprios descendentes de Gudyr?

                - Caráter e força de espírito não são coisas hereditárias como terras, força física, cor dos cabelos... Assim como os ruivos surgimos aleatóriamente, os Altos Espíritos também o fazem, sem distinção de estamento ou qualquer outra coisa.

                - Mas ele...

                - Fique quieto e pare de fazer perguntas! - Esbravejou Roddare, tentando controlar o tom de sua voz. -  Há de ser ele, e você há de acreditar nisso! Nosso tempo está acabando e se não encontrarmos outro Hermaður depressa os dragões, e as demais criaturas vão atravessar o rio como já fizeram algumas vezes, no passado, para matar, destruir e pilhar... Contudo, desta vez já estamos fracos demais para nos defendermos, e teremos que deixar Eldsjäl...

                Bjønt arrepiou-se ao ouvir isso. Ambos permaneceram quietos o restante da viagem, escutando o som dos remos entrando e saindo das águas calmas do rio, e os pássaros sobrevoando o vale, bem alto. Até que, logo após uma curva abrupta das montanhas, depararam-se com um pilar de pedra destacado delas, isolado no meio do rio, coberto com o mesmo tipo de gramínea alaranjada que o restante das pedras soltas, próximas dos paredões, também exibiam.

                Nele, um escudo e um chifre de beber repousavam, alguma oferenda antiga ao espírito de Dragon. Na parede logo atrás do pilar estava esculpido em baixo relevo uma imagem da fera que o guardava, posta na sombra de uma árvore frondosa que se debruçava sobre algumas rochas soltas, empilhadas por ali por conta de algum deslizamento passado.

                - Não deve tardar muito, agora - Comentou Roddare observando as pálpebras de Wodan em intensa atividade e gotículas de suor começando a formar-se sobre sua testa. Contudo, um estalido rompeu o silêncio e Wodan despertou sobressaltado, segurando-se na beira do bote, fazendo-o balançar violentamente. Os anões se agarraram também, assustados.

                - Ele... é muito... forte! - Exclamou, arfando.

                Outro estalido ecoou e dessa vez Bjønt gritou.

                - Olhe ali! - Ele apontava para o alto da árvore. Roddare cobriu os olhos com uma das mãos, enquanto segurava os remos com a outra. E ainda antes de distinguir a silhueta da criatura que se esgueirava no alto de um dos seus galhos, algo veio despencando aos saltos pela parede da montanha e aterrissou pesada e ruidosamente no topo do pilar. Pedrinhas acompanharam o movimento e caíram no rio, com sons suaves e abafados.

                Wodan ergueu-se sobressaltado, espada e escudo nas mãos, Roddare acompanhou com o olhar o movimento da criaturinha escanifrada que saltou da árvore para se alojar ao lado da maior, apoiando-se no cabo da arma que trazia.

                - Ogro... - Rosnou Bjønt enfurecido, erguendo seu machado.

               

  Bem, esse foi mais um estudo... Se tiverem gostado, e quiserem a continuação deste pequeno conto, comentem, curtam, compartilhem....

Voltando a Atividade

Bem, estive ausente há um tempo, mas prometo retomar nossas atividades literárias. Esforçar-me-ei para postar ao menos um texto, de algum tipo, por semana (aos sábados, provavelmente)

Tentarei ter 50 textos até o fim deste ano e espero que todos possam aproveitar tanto quanto eu esta prazerosa arte de contar histórias...


Não deixem de comentar, dar suas opiniões e participar conjuntamente de qualquer coisa que possamos fazer aqui. Estou aberto a pedidos, sugestões, críticas... divirtam-se.

Desejo a todos um ótimo ano novo!

13 de novembro de 2013

(Ideias para uma Animação) A Saga de Mormek - Possível Primeiro Episódio

Capítulo 1

A Partida

Numa era onde tudo parecia ser belo, mágico e grandioso nas terras de Baelon o cometa J’tahr Neleth Bjork Kalahdelohr cortou mais uma vez os céus com sua cauda rubra trazendo nela a profecia da guerra que findaria aquela era e daria início a uma nova. As raças se prepararam mais uma vez. Conselhos de sábios e reis se reuniram, as antigas ordens foram restauradas, armas reforjadas. A guerra era iminente.

De um canto a outro do continente, exércitos se mobilizavam e preparavam suas antigas fortalezas para a Grande Guerra que decidiria qual a Rei seria o Senhor Supremo das Terras de Baelon. Isso traria à sua casa e à sua raça Honra! Pelo menos era isso que era dito pelos Anciãos sempre que o cometa surgia novamente a cortar a imensidão azul que era o céu.

Os Elfos faziam seus preparativos nas imensas florestas de Lilith. Preparavam suas flechas e espadas afiadíssimas de Ferro da Lua, como chamavam o metal mágico que usavam em suas forjas. Preparavam suas armaduras de Mithral, o metal mais leve e resistente de Baelon e convocavam novamente a ordem dos Irmãos da Floresta para comandar seu exército.

Os Homens, que tinham tido Gondar de Termotéia como último Senhor Supremo de Baelon na ordem de sucessão, guarneciam suas imensas fortalezas de pedra crua e cinzenta com milhares de guerreiros e armas. Reorganizavam e treinavam novos jovens para montar as bestas aladas que davam nome à Ordem dos Cavaleiros de Dragão.

Os anões reabriam os antigos túneis subterrâneos que ligavam as montanhas de Rorkrentekir, a capital de sua nação com o restante de suas fortalezas e cidades subterrâneas e reuniam-se em seus demorados conselhos políticos para nomear os representantes de cada Clã, para que estes, juntos, pudessem guiar seu povo para a guerra com os mais bem trabalhados equipamentos.

Os clãs dos anões eram muito focados em seus desígnios, e cada facção dessa enorme diminuta raça era responsabilizada, nos momentos das guerras, por alguma parte da produção. O Clã da Folha era o clã dos plantadores e agricultores, o da Pedra o dos pedreiros e engenheiros, o do Aço dos ferreiros, o do Sangue dos guerreiros, o do Ouro dos mercadores, e assim por diante. E todos os anões acreditavam que isso era um desígnio de seu antigo Deus Temyr.

Na verdade, quase todos…

- Mormek! Você não pode sair de casa para se tornar um cavaleiro! – A mãe dele gritava do lado da lareira, agitando a colher de pau enquanto ele se debruçava sobre um prato de assado.

O pai dele estava do outro lado da mesa, vestido em seu avental de couro remendado imundo de cinzas. Tinha tirado as grossas luvas, estas repousavam ao lado de seu prato. Velas e tochas ajudavam a lareira a iluminar toda a cozinha. A presença do aço refletindo o fogo bruxuleante em quase todos os objetos de lá denunciava automaticamente a proveniência deles do Clã do Aço.

Mas ainda assim, se isso não fosse o suficiente para provar seu lugar no Clã, os quadros dos antepassados homens de seu pai, pendurados perto da porta, deveriam ser. Os quatro mais próximos da dispensa mostravam, cada um, um anão de avental em poses altivas exibindo seus malhos. Uma quinta moldura exibia uma tela rasgada lembrando a vergonha que foi seu tataratataratataravô ao, na era anterior, deixar seu posto de ferreiro chefe para tornar-se músico.

- Mãe – disse ele, contidamente. – Eu vou me tornar um cavaleiro, você verá. E serei o anão mais honrado desse e de qualquer outro clã. Montarei um dragão e lutarei ao lado de nosso rei na Grande Guerra! - Terminou ele, bradando, sacudindo a colher e atirando gotas do caldo no rosto de seu pai.

Ele ouviu-o bufar, e virou-se para encará-lo.

- Dragões são coisas de humanos moleque. – Repreendeu-o o pai, do jeito rouco e calmo que falava sempre, enquanto limpava o rosto com a mão grossa e gorducha. Deixando a coxinha que devorava na beira do prato. – O seu lugar é aqui. Conosco, na forja… Nada vai trazer mais honra a um anão do Clã do Aço do que o próprio Aço. Segurar um malho com força e dar com ele numa barra de ferro incandescente! Isso sim é o que deve fazer...

- Isso mesmo Mork, diga para ele! – Rugiu a mãe em apoio.

- Estou dizendo benzinho... – resmungou o pai. – Agora já me perdi. Enfim... Mormek... se busca por honra, fique aqui, onde é o seu lugar.

- Mas pai! Eu quero ser um cavaleiro! Eu quero lutar com uma espada, não fazer uma!

O pai voltou a morder a coxinha, sem saber como expressar seu desapontamento. A mãe voltou a mexer na panela. Mormek terminou a refeição. Estavam todos em total silêncio, a única coisa que se ouvia era o borbulhar do ensopado fervendo sobre a lareira, ele desceu da cadeira e foi até seu quarto.

Lá recolheu suas coisas, vestiu a cota de malha que ele mesmo tinha feito em algum momento da vida durante seus anos de aprendizado com o pai. Pôs sua mochila repleta de roupas e comidas secas para a viagem nas costas, atou um cantil e um saco de dormir a ela, apanhou a espada pendurada pela bainha num gancho na parede e voltou para a cozinha.

Pronto para partir.

- Mãe, pai... Muito obrigado por tudo, mesmo! Mas eu sinto que este não é o meu lugar, eu vou me tornar um cavaleiro! Vocês verão! O maior de todos!

Sua mãe virou-se, uma lágrima marcava-lhe a maçã do rosto e ia perder-se em sua barba.

- Por favor Mormek – disse ela indo até ele. – Não vá!

Ela prendeu suas mãos nas dela olhando-o nos olhos. Ele sentia-se triste por deixá-los, mas sabia que era o que precisava fazer. O que queria fazer!

- Desculpe mãe... eu vou – Ele soltou suas mãos das dela e dirigiu-se para a porta. Abriu-a, deparando-se com o quadro rasgado.

- Mork, diga alguma coisa! – Suplicou a mãe.

- Não tenho mais nada a dizer – resmungou o pai sem levantar os olhos da mesa. – Vá e lembre-se do velho Bohr...

- Eu não vou ser cantor pai... vou ser um Cavaleiro!

Mormek bateu a porta atrás de si, e atravessou as longas e altas galerias pedregosas da grande cidade de Rorkrentekir, passou pelo estábulo e pegou um bode das montanhas, que o levaria mais depressa até a Estrada dos Homens, de onde seguiria para Olívar, a cidade humana mais próxima.

30 de outubro de 2013

(Ideias para uma Animação) A Saga de Mormek - Construção de Personagem

Nome - Rehlar

Raça - Elfo

Idade - 347

Ocupação - Mago

Descrição Física – 160cm, Loiro, magro.

Habilidades – Pegar a mulher mais bonita do recinto... Sempre.

História – Rehlar, enquanto uma criança elfa foi instruída nas artes da sabedoria, da ponderância, da paciência. Aprendeu as músicas mágicas de seu povo, as palavras antigas e viveu todos os anos necessários para tornar-se adulto. Seu pai era um dos magos mais poderosos de seu povo, que lutou há três eras ao lado do Rei Voleth Gaduhr e ensinou ao seu filho as artes mágicas de sua raça.

Rehlar sempre, desde pequeno, teve uma queda por mulheres bonitas, por algum motivo nunca pôde se concentrar adequadamente quando houvesse uma mulher de aparência respeitável a menos de cem metros dele. Sempre tentava aproximar-se, charmoso como era, exímio galanteador, bom com as palavras, poucas podiam resistir a todo o encanto de Rehlar.

Ele não era tão sábio, nem tão paciente e nem tão ponderado quanto os elfos deviam ser. Além disso era míope, e ficou surdo de um ouvido quando um marido ciumento tentou acertá-lo com um canhão ao vê-lo saindo do quarto de sua mulher...

Rehlar não compreendia o ciúme, acreditava que não deveria haver relacionamentos permanentes, porquê não aproveitar o que o mundo nos pode oferecer? Os anciãos ensinavam coisas como compartilhar, dividir, integrar-se com o restante dos indivíduos e com a natureza... por que não seguir isso com o restante das pessoas do sexo oposto?

Sua vida seguiu por anos alternada entre sexo e estudos, ele preferia dar ênfase ao sexo. Partiu em busca de aventuras, e proteção contra os homens que compartilhavam do tal terrível sentimento que ele repudiava. Depois de já ter compartilhado sua natureza com todas as elfas que conhecia, foi em busca das humanas. Para seu pai ele estava indo desenvolver suas aptidões mágicas, ele julga que o tenha feito. Aprendeu a tirar flores das partes mais inusitadas do corpo de uma mulher. Conseguiu enriquecer tirando moedas do ouvido de um jogador de cartas. Passou a encantar mulheres em menos de 3 segundos, com magias não verbais. Ele conseguia desaparecer de quartos sem ser notado, às vezes até conseguia retornar sem nenhuma complicação. Teleportar-se de um armário a outro, de casa em casa e cama em cama.

Durante suas viagens aprendeu e ensinou muito. Mas causou fins de casamentos, deixou para trás corações partidos, maridos furiosos, mulheres apaixonadas, virgens desvirginadas e reis ensandecidos. Por isso era melhor para a saúde instável dele, que permanecesse mudando de ambiente, mudando de ares e climas.

26 de outubro de 2013

(Ideias para uma Animação) A Saga de Mormek - Construção de Personagem

Nome - Tchunk

Raça - Orc

Idade - 22

Ocupação - Ladrão

Descrição Física – 230cm, careca, peludo

Habilidades: Força descomunal, e uma sutileza desconcertante

História – Os pais de Tchunk eram escravos de uma fortaleza humana no coração de Baelon. Seu pai era cavalariço e sua mãe copeira de um senhor, para eles, terrível, chamado Willem de Calhart. Tinham sido capturados em sua tribo, numa incursão humana em busca de escravos. Ele nasceu dentro dos muros da fortaleza, num estábulo, numa manjedoura. Em todos estes lugares. Bebês orcs demoram a sair, são grandes demais.

Durante a infância Tchunk cresceu revoltado com os guardas que maltratavam sua raça, seus pais, e ele. O punham para quebrar pedras, cavar buracos, carregar tijolos, afiar armas... que escolha ruim fizeram. Os orcs são criaturas grandes, fortes e desastradas. Tchunk tinha todos esses adjetivos maximizados. Logo voltarei a isso.

Quando podia, adentrava as cozinhas e roubava legumes, carne, batatas, grãos. Enfim... comida. Levava para seus pais. No início eles o repreendiam por estar roubando, mas logo passaram a precisar daquela comida, quando Willem reforçava a carga de trabalho e mantinha a papa de cereais que eram entregues em porções ínfimas como refeição única. Quando as cozinhas começaram a ficar muito vigiadas, ou quando estavam fechadas, ele intimidava meninos menores para fazerem alguma de suas tarefas enquanto ele deixava o castelo para conseguir comida, roupas e ferramentas nas cercanias da cidade.

Muitas vezes ele foi perseguido, por cães, guardas, ambos juntos. Mas nunca descobriram quem era, pois usava um manto roubado de um príncipe gordo que fora brincar com os filhos de Willem em um rio, junto dos guardas e alguns escravos que os serviam e os guardavam, e teve de sair enrolado na capa de um dos homens de Willem, já que, provavelmente um guaxinim, tinha roubado suas roupas. Usava também uma máscara negra.

Muito discreto.

Sempre discreto.

Certa vez foi pego, e preso, ficou algumas semanas sem voltar para casa, quase seis meses. Foi maltratado na prisão, mas já era forte o bastante para se defender do restante dos homens de lá. Fez um amigo, um humano, que se mostrou disposto a ajudar, a rir de suas tolices, e ensiná-lo alguns pequenos truques, em troca, o orc ajudou-o a fugir da prisão... e não o vira mais. E talvez aqueles dias que passara sem comida e apanhando tenham sido por conta de seu amigo, mas preferia pensar que os guardas eram uns malditos, bastardos, imundos!

Voltando ao ato de afiar armas no castro de Calhart, Tchunk, já com seus dezessete anos, forte como um homem muito forte, descobriu que sua mãe estava muito machucada por conta da punição de um soldado, e seu pai doente pelo excesso de trabalho e falta de comida. Quando teve uma oportunidade empurrou o soldado que tinha açoitado sua mãe contra uma parede, pronto para ensinar-lhe uma lição, mas este tropeçou numa cadeira e caiu sobre um cavalete de lanças e espadas recém afiadas. Ele não tentou mais se levantar. Nunca mais.

Tchunk ficou desesperado, escondeu o corpo da melhor forma possível e correu até seus pais para contar o que havia acontecido. Sabiam que se permanecesse ali, mais cedo ou mais tarde, descobririam. Os três fugiram à noite. Seu pai roubou um cavalo para sua mãe ir sobre ele, ferida como estava. Tchunk roubou uma maça e escondeu-a. Já quase fora da cidade dois guardas tentaram impedi-los de sair. Tchunk esmagou os crânios dos dois juntos, com as mãos, os pôs sentados, recostando-os numa árvore, e partiu com seus pais floresta e noite adentro.

Sabiam que seu antigo vilarejo não existia mais. Passaram algum tempo caçando e vivendo na floresta, mas os conhecimentos precários de medicina foram insuficientes para curar a gangrena que começou a se alastrar pelas costas açoitadas da mãe de Tchunk. Seu pai ficara sem comer bem durante o tempo que estivera preso e por isso estava desnutrido e fraco. Sua mãe não resistiu às dores e faleceu duas semanas depois de caminhada e acampamento na floresta, seu pai, alguns dias depois de sua mãe partir começou a ter febre altíssima e não resistiu. Disse para Tchunk continuar sua vida, encontrar algum lugar para viver...

Tchunk estava bravo. Ele não entendia como seus pais tinham o deixado. Também estava faminto, conhecia pouquíssimo da vida na floresta, precisava encontrar uma cidade. Num vilarejo conseguiu algumas roupas inteiras, pão duro e leite. E na estrada encontrou um meio de sobreviver. Alguns bandidos tinham-no parado para assaltá-lo, mas se frustraram ao ver do que se tratava: um orc maltrapilho. Tchunk segurou a maça até suas juntas ficarem pálidas, e olhou para os bandidos com olhos fundos e ameaçadores. Passou a fazer parte deles. Engordou, aprendeu algumas manhas de bandido, e conseguiu fugir quando derrubou uma pilha de troncos para lenha sobre os soldados que corriam atrás dele enquanto outros levavam presos seus companheiros.

Seguindo viagem, chegou até uma cidadezinha, com o dinheiro que tinha levado dos bandidos quando eles foram presos. Comprou um casebre e comia sempre na taverna... seu dinheiro foi acabando... precisava de mais. E só existe uma coisa que ele faz, além de ser absurdamente forte: roubar.

23 de outubro de 2013

(Ideias para uma Animação) A Saga de Mormek - Construção de Personagem

Geroge Haltón de Manterrión, O Bardo
 
Raça - Humano
 
Idade - 19
 
Ocupação - Bardo
 
Descrição Física – 180cm, magricela, mudo
 
Habilidades - Belíssima voz, Grande Músico, Bom Orador, Inteligente e Culto, Astuto e Sagaz
 
História – Criado na corte de Manterrión George teve a oportunidade de crescer cercado por músicos e pantomimeiros. Ele era protegido do Senhor Carlos Manterrión, pois foi largado pelos pais na porta do grande castelo Manterrión e a senhora Hélia o tomou para si, já que não conseguia dar a Carlos um herdeiro e o criou como se fosse seu filho. Ela o ensinou a ler e escrever, contou-lhe histórias do mundo, ensinou-lhe canções diversas. Logo descobriram que tinha uma facilidade imensa com instrumentos musicais em geral e sua voz era bela e suave e afinada... Uma voz magnífica! Era o que costumavam dizer.
 
Hélia e ele passavam dias nos jardins brincando, e na grande biblioteca estudando. Ele adorava ler com ela. Contudo ela morreu quando ele tinha dez anos. Durante a adolescência George desenvolveu sua música e suas habilidades teatrais junto aos artistas que passavam sempre por lá, com seus grupos de teatro e suas trupes.
 
Carlos o criou como filho durante quase toda a vida, e tornou-se seu mecenas, pagou-lhe viagens para vários cantos do mundo onde se apresentava e ganhava prêmios, comprou-lhe roupas caras, ensinou-lhe as histórias dos reinos, até a lutar, mas nisso não se mostrou muito apto. Após a morte de Hélia era Carlos que passava a maior parte do tempo com George até arranjar uma nova esposa, Marta da casa de Golão. Ele tinha completado quinze anos quando o filho de Manterrión, Marlos, uma mistura tosca do nome dos pais, foi trazido à luz. E agora que havia um verdadeiro herdeiro não fazia mais sentido ser tratado tão bem quanto era... e tampouco desejara um trono.
 
Ele uniu-se a um grupo de pantomimeiros e voltou a viajar pelas terras com seu bandolim e o restante dos integrantes da trupe. Seu nome passou a ser tão conhecido que sempre que sua trupe parava em uma cidade todos os homens e mulheres, de pescadores e cortesãs aos nobres mais ricos da cidade, paravam para ver seus shows. Ele foi requisitado em diversas apresentações particulares, em castros e jardins, casamentos e partos. Certo dia, contudo, como sempre há de haver um que mude a vida de um homem, em uma apresentação no teatro de Riodourado, cantou uma canção de escárnio referente às rameiras que foram para a cama com Gorbe, filho de Gor, guardião da fortaleza de Petérem, uma canção conhecida nos bares e docas mais sujas de Baelon, e que costumam arrancar boas gargalhadas da platéia. Mas naquele dia, não esperava encontrar o protagonista da canção sentado à sua frente com seus guardas atrás de si.
 
Ele fugiu e o restante da sua trupe partiu sem ele. Deixou aquela cidadezinha para nunca mais voltar. Viajou por cidades menores sem nunca mais dizer uma única palavra para que não o reconhecessem. Em algum momento encontrou um tamborete e passou a apresentar-se numa taverna, buscando a cada novo dia um motivo para deixá-la e aventurar-se pelo mundo novamente, conhecer o que ele ainda não conhece, ou o que Hélia lhe dizia que existia quando era pequeno e ainda não havia visto.

20 de outubro de 2013

(Ideias para uma Animação) A Saga de Mormek - Introdução

Há muito tempo atrás um mal terrível vindo dos céus assolou as Terras de Fogo, onde viviam os homens: as temperaturas se elevaram como nunca antes, a luz do sol avançava arruinando tudo em seu caminho com o fogo. Baelon, um indivíduo valente, conseguiu cruzar os desertos guiando um grande grupo de pessoas até o mar, onde, com um navio, o atravessou e alcançou as terras que viriam a ser chamadas de Terras de Baelon. Onde moravam também elfos e anões, e outras criaturas encantadas ou não. E lá os humanos reconstruíram seus lares.

Isso é o que contam as lendas.

O fato é que já faz tanto tempo que os humanos chegaram até aí,  após centenas de anos passados, e milhares de casas construídas ao sul é que os elfos e anões se deram conta do que ocorria fora de seus reinados. À essa altura nem mesmo os humanos lembravam-se a razão que os levara até aí.

Foi quando as criaturas, que iam sendo pouco a pouco expulsas de suas terras pelos humanos, começaram a buscar novos lares nas terras élficas e anãs que eles se deram conta de que algo estava muito errado. Nesta época o cometa rasgou os céus, e nesta época começou a guerra. E a verdade é que o nome do primeiro a atirar uma flecha contra um anão, pondo a culpa num elfo, era Baelon, o Senhor, que guiou os humanos para a batalha mais sangrenta e duradoura de todos os tempos: A Primeira Guerra.

Um número incontável de vidas, até mesmo para os que sabiam contar à partir de um milhão, foram perdidas: élficas, anãs, humanas... e das outras raças também. E o que restou destes povos recomeçou suas histórias tendo aquele grande acontecimento como marco precursor. E como uma funesta tradição a guerra recomeçava sempre que o cometa surgia novamente no infinito celeste.

Ao longo do tempo estabeleceram-se normas para estas guerras interraciais.Os senhores de cada uma delas negociaram e entraram em um acordo criando o Livro de Regras e Anais de Guerras. Cujo título causou a princípio muitas confusões entre os leigos. E assim sucederam-se períodos de paz e períodos de guerra, onde as raças se preparavam mais uma vez, em busca de glória, poder... e só.

É basicamente por isso que eles buscam.

E ganha a guerra aquele que conseguir ficar por último no alto da torre da Fortaleza Dourada.

Sim, é essa a condição mesmo...

Mesmo, posso continuar? Obrigado.

Ao longo do tempo os reinos dos elfos, humanos e anões acabaram se ramificando, por conta de questões políticas internas, e a Grande Guerra passou a mobilizar cada vez menos pessoas. Embora ainda fosse um grande evento, e porventura todos acabassem sendo atingidos pela atmosfera do conflito, ainda havia vida em meio a guerra.

O interesse passava a ser cada vez mais dos senhores humanos que tinham se dividido em 7 reinos. Os elfos e anões permaneciam reclusos em seus ambientes naturais, envolvendo-se pouco com a guerra, o bastante para manterem seus territórios e fronteiras protegidos. E assim o espaço da guerra envolvia geralmente os 7 reis que disputavam pela honra de governar os 7 reinos, e trazer fama ao seu nome e à sua família.

15 de outubro de 2013

Feliz dia do Professor

Uma homenagem à todos os professores, neste dia que foi dado para que eles sejam lembrados. Mas ao invés de serem lembrados como os educadores que são tem sido lembrados pela classe explorada que se tornaram, uma sub-espécie secundária de menor importância, desprezada, prestadora de favores... Não é isso ser um professor. E por isso para nós hoje é um dia de luta, não de descanso. Luta não só pelo nosso reconhecimento, pois seria uma luta prepotente e infundada, mas pelo direito de todos os cidadãos e até mesmo dos não cidadãos do nosso país de terem esta tão importante etapa da vida respeitada, valorizada, bem estruturada. Os professores não lutam apenas por si, lutam por todos. A mídia tenta fazer-nos parecer vândalos, mas não se dão conta que são eles que estão vandalizando com o descaso que tem concedido à educação Pública, e a forma com que todos estes problemas resvalam na educação Particular, cujos patrocinadores se julgam isentos de responsabilidade.

A função do ser humano é refletir e discutir. Abro este espaço então para que o façamos.

A história durante um bom tempo foi o estudo de Grandes Homens, Heróis de seus tempos, para que outros pudessem aprender com seus Grandes Feitos. Mas esse história era insuficiente para compreender o presente, insuficiente para compreender o próprio passado, e insuficiente para compreender as sendas por onde a humanidade passou.
Por isso a História passou a ser a História dos Homens, grandes e pequenos, mas o que são os homens pequenos? Os pobres? Os fracos? Os incapazes? Não, os homens pequenos são todos aqueles que um dia ficaram à sombra dos chamados Homens Grandes, os 'heróis' políticos, os 'grandes' líderes, os astutos generais...
Mas ainda não foi o bastante para abranger tudo e todos... E agora fazemos a História das Gentes, de todas as gentes, sem distinção, não há mais as grandes e as pequenas, as fortes e as fracas...
Há gentes e gentes, cada uma com suas peculiaridades, cada uma com suas falhas e suas capacidades.
Há gentes de todos os tipos, e cada uma delas deve ser contemplada pela disciplina que se diz Humana, por que ser Humano é isso, é compreender, é questionar, é pensar e repensar, é lutar, é mostrar que se tem poder e é acreditar, principalmente, que você faz parte desta história e que a possibilidade de mudá-la está em você, e faz parte de você.
Assim como tem feito parte de todos os Homens da História.
Viva a História.